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Agora é que são elas

Muitas vezes as mulheres foram colocadas apenas no papel de musas de times; agora, elas estão conquistando espaço e protagonizando verdadeiras histórias de amor pelos seus clubes

Reportagem e fotos por Giullia Souza

Orientação Chico Bicudo

As mulheres estão presentes no futebol desde os primórdios de sua história no Brasil, no início do século XX, torcendo, vibrando, chorando e se emocionando. No entanto, essa relação da paixão feminina pelo futebol parece não agradar parcela da sociedade. De acordo com o Estudo Psicográfico das Torcedoras Universitárias, feito em 2018 por Rafael Barbosa Alves, bacharel em Educação Física pela Universidade Anhembi Morumbi, 40% das entrevistadas responderam “sim” quando foram questionadas se as pessoas já se incomodaram com a forma como elas torciam. A questão é: será que o incômodo se deu, de fato, pela forma de torcer ou simplesmente por serem mulheres torcendo? Pensando nisso, decidi expandir os olhares e  mergulhar no universo de cinco torcedoras boleiras fervorosas. Elas falam sobre o amor pelo futebol e por seus times de coração, a luta, a resistência, as loucuras e os perrengues que já passaram desde que decidiram abraçar o esporte que é paixão nacional. Pelos olhares de Juliana, Dayane, Mirena, Mikaela e Mariana, pude entender parte do (muito) que acontece para além dos noventa minutos de uma partida – e a partir das percepções femininas.

O primeiro obstáculo que as mulheres torcedoras ainda precisam driblar é o preconceito, presente neste ambiente pela questão do gênero. Parece obsoleto dizer que a intolerância ainda é um problema enfrentado pelas mulheres que acompanham o futebol, mas xingamentos, olhares atravessados, ofensas e inferiorização são algumas das situações costumeiramente vividas por elas. A gremista Mirena Ruiz conta que, na volta de um duelo entre São Paulo e Grêmio, em julho de 2017, foi perseguida por torcedores do time adversário desde a saída do estádio do Morumbi até a estação Vila Matilde, linha vermelha do metrô, já na Zona Leste da cidade. “Eles vieram o caminho inteiro falando ‘seu lugar não é aqui’, ‘sai daqui’ e tudo de pior que tu imaginar”, simplesmente porque ela é mulher. Histórias como esta não deveriam, mas são comuns no universo do futebol. Ainda há muito o que se fazer para que a experiência de uma torcedora seja segura, divertida e encarada como natural.

Mirena Ruiz vestida com o manto gremista.

Segundo Déborah Palma, coordenadora do curso de Educação Física da Universidade Anhembi Morumbi, muitos homens ainda denigrem a imagem da mulher torcedora e têm dificuldade de aceitá-la nesta posição. “Antigamente, elas eram julgadas como literalmente burras no assunto. Hoje elas argumentam, comentam e falam sobre futebol com muita propriedade”, rebate. Para ela, esse comportamento machista se manifesta de diferentes formas, como duvidar do conhecimento da mulher sobre o assunto e não raro se dizer surpreso com a qualidade do repertório feminino e fazer afirmações como “puxa, para uma mulher, até que você entende bastante de futebol”. A coordenadora, que é corinthiana roxa, afirma já ter ouvido esta frase diversas vezes e a contesta duramente. “Ninguém fala isso quando a mulher vai comentar um jogo de vôlei, basquete ou a natação. Mas quando é sobre futebol vem o espanto”.

Outra importante observação feita por Déborah é que, há pelo menos quatro décadas, não havia tantas mulheres nas arquibancadas. Hoje o cenário é diferente. “Se você pegar recortes de jogos de antigamente na televisão, quase não veria mulheres. Se congelar imagens dos jogos de atualmente vai ver que isso mudou totalmente. O homem é maioria ainda? É. Mas a mulher conquistou o lugar dela”.

No começo da história do futebol no Brasil, início do século XX, o esporte era apreciado fundamentalmente pelas elites, principalmente de São Paulo e do Rio de Janeiro. Os espaços dos jogos eram ocupados pelas famílias da alta sociedade destes dois estados portanto, era comum ver mulheres acompanhando as partidas, se envolvendo com assuntos relacionados aos clubes e até mesmo escrevendo sobre o tema.

De acordo com Aira Bonfim, pesquisadora do Museu do Futebol, estas famílias levavam suas filhas para estes eventos, onde, inclusive, era possível arranjar um casamento. E o afastamento da elite aconteceu conforme se deu a popularização deste esporte. No primeiro momento ele é um hobby; a partir da década de 30 ele passa a se profissionalizar, os jogadores começam a ser pagos e inicia-se uma nova forma de organização nacional do futebol. “Este espaço começa a se coletivizar e então estas famílias se afastam destes núcleos. Com isto, as arquibancadas vão ficar muito mais masculinas”, confirma. De acordo com Aira, as mulheres estão intensificando cada vez mais as disputas pela ocupação dos espaços públicos, e a reapropriação das arquibancadas pelas mulheres também faz parte das discussões e lutas feministas. Na visão dela, no entanto, o futebol ainda acaba sendo marcado pela presença majoritária de homens e por um reforço da ideia da virilidade. “Por mais que a gente veja o crescimento do esporte, sempre existem formas culturais de afastar a mulher”, confirma a pesquisadora, que exemplifica esta fala lembrando do Decreto-lei de 1941, imposto pelo Conselho Nacional de Desportos, que proibia pessoas do sexo feminino à prática de “desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”, reforçando, naquela época, o estereótipo da mulher como alguém que deve se limitar a cuidar da casa e criar seus filhos.

Em visita ao Museu do Futebol, conversei com Ademir Takara, bibliotecário do Centro de Referência do Futebol Brasileiro, que falou sobre o aumento de pesquisadores do assunto desde o ano de inauguração do centro (2013) até o momento. Ele diz que, neste campo, pesquisadoras ainda são a minoria e ressalta a ausência da presença feminina na literatura de futebol.

Nesse sentido, iniciativas como o “Mulheres de Arquibancada – Resistência e Empoderamento” são fundamentais para furar mais esse bloqueio. O propósito do movimento é lutar contra o machismo e estimular a presença feminina quando se trata do futebol de maneira geral. Nos encontros, são compartilhadas experiências, opiniões e definidas ações e lutas. A primeira reunião nacional aconteceu em junho de 2017, no auditório do Museu do Futebol, São Paulo, e contou com a presença de 350 mulheres de mais de 50 torcidas e coletivos de diferentes times do país. Empatia e sororidade são os principais pontos de unidade do movimento, já que suas integrantes são de clubes rivais, mas lutam pela mesma causa.

Aira considera importante a proposta do evento e diz que se trata de “um exercício muito válido, que dá a oportunidade de se criar um espaço de reflexão de mulheres que compõem lugares sociais diferentes. As mulheres brancas, negras e homossexuais, por exemplo, que têm uma relação muito forte de bancada, podem se encontrar, conversar e criar diretrizes de ação”.

Juliana Costa, 28 anos, analista de reembolsos e torcedora do Juventus, tradicional clube da Mooca, bairro da Zona Leste de São Paulo, esteve no encontro. Ela confirma que as pautas trataram de assuntos como as condições dos estádios, a forma de abordagem e comportamento abusivo da polícia e assédio. Segundo ela, tem se tornado comum, e quase natural, a união entre as mulheres em situações de risco e vulnerabilidade. É recorrente nestes casos uma defender a outra. “Infelizmente ainda têm muitas situações que deveriam não acontecer ou deveriam ser coibidas. E não acontece isso. Quem vê fecha os olhos e é conivente”.

Juliana Costa mostra uma de suas tatuagens em homenagem ao Juventus, gravado na pele e no coração.

Juliana lembra que, desde muito nova, acompanha esportes e ama o futebol. Num bate papo no Sesc Belenzinho, ela revelou que há tempos a convivência com vizinhos torcedores já chamava sua atenção. “Em dia de clássico, desde as seis horas da manhã eram fogos para tudo quanto é lado, bandeirões e varais com as camisas penduradas nos semáforos”. Sua paixão pelo Juventus da Mooca veio em 2012, mas ela só começou a frequentar os jogos em 2015. Desde então, vai em todas as partidas, não importa o local. “Depois que eu peguei o gosto, se o Juventus for para a casa do chapéu eu vou dar um jeito de ir. No começo, eu procurava formas de me enfiar nas caravanas e ia”, diz a juventina que, dentre as diversas tatuagens, carrega na pele o brasão do clube amado. Nada é capaz de impedi-la de assistir ao time jogando, nem distância, e nem mesmo o trabalho. Ela conta que, inclusive, programa suas férias para a época em que acontecem os campeonatos.

Quando falamos sobre o preconceito vivido dentro do estádio, Juliana afirma já ter passado por isto e ter batido de frente com quem já a ofendeu. “Nas primeiras vezes que quiseram falar alguma coisa para mim, dei respostas atravessadas para cortar de uma vez”, diz. Ela, que tem uma forte presença de espírito, conta que é “esquentadinha” e, por isso, nunca se deixou abalar pelos comentários, que são do tipo “só está aqui (estádio) para procurar macho”, “está querendo aparecer”. Além disso, tem as piadinhas e perguntas como “O que é impedimento?”.  Ela detona: “Se quer ser machista, se quer ser babaca…Seja. Mas isso não vai mudar  meu pensamento, nem meu interesse”, afirma. Felizmente, a paixão pelo futebol permite superar as coisas ruins. Nesta caminhada, ela destaca a união entre a maioria das mulheres associadas das torcidas organizadas que conheceu e que se orgulha de ter ao lado nas arquibancadas. “Se não somos nós por nós, eles é que não serão pela gente”, ressalta.

Assim como Juliana, a palmeirense e empresária Dayane Oliveira, 28, também faz parte de torcida organizada. Sua relação com o futebol começou quando ainda era criança, “enquanto as minhas amigas colecionavam o álbum de figurinhas das princesas, eu já colecionava o do Campeonato Brasileiro”, conta. O Palmeiras, de fato, chegou em 2008, quando, por causa de um namorado palestrino, começou a acompanhar o time. Ela conta que o que a fez se apaixonar foi, sem dúvidas, a forma como a torcida organizada atuava nas arquibancadas, principalmente porque o canto é muito alto e bonito, diz. Na conversa, relembrou um jogo marcante. “O Palmeiras estava perdendo e a Mancha Verde, ao invés de xingar, começou a cantar mais alto ainda. Eu achei aquilo muito bonito”. Outro motivo que a fez entrar para a Mancha foram as caravanas, que levam torcedores para assistirem o clube nos jogos mais distantes. Dayane contou as loucuras que já fez pelo time.

Dayane Oliveira cuida para que o Palmeiras seja lembrado até nos detalhes.

Uma delas foi um bate e volta de São Paulo até Porto Alegre, que fez em julho de 2016, para assistir a uma partida do Campeonato Brasileiro num final de semana em que o Palmeiras enfrentou o Internacional. Para isso, foi necessário enfrentar duas noites inteiras viajando de ônibus e temperaturas perto de 0°C. Outra foi uma viagem que fez sozinha até Londrina para ver um jogo da Copa do Brasil, em julho de 2015, contra o ASA de Arapiraca. Desta vez, ela partiu do terminal rodoviário da Barra Funda, pesquisou e se hospedou no mesmo hotel em que os jogadores ficaram. Ela queria uma foto com cada. E conseguiu! “O hotel era pequeno, não tinha como me colocarem longe deles. Então, no mesmo corredor que eu, tinha vários jogadores. Eu passava por eles a todo momento”, conta.

Fora isso, ela também já passou 12 horas, madrugada adentro, na fila para conseguir um ingresso. “Quando abriu a bilheteria deu tumulto, a polícia chegou e eu quase apanhei”, disse. A palmeirense é fanática e vaidosa. Além do manto, acrescenta nos detalhes a cor verde – nas pulseiras, colares, unhas e até na maquiagem do olho, sem contar nas duas tatuagens feitas em homenagem ao clube.

Quando perguntei sobre preconceito, ela abordou um ponto de vista pouco discutido: a rejeição de mulher para mulher. A empresária relata que, até hoje, recebe olhares de julgamento de outras mulheres e ouve críticas pelo fato de assistir às partidas sozinha, como se esta atitude fosse errada ou proibida. “Ou seja, se eu quiser ir no jogo e não tiver companhia, significa que eu não posso?”. E, assim como Juliana, Dayane já ouviu comentários como “está aqui só para aparecer”. Hoje, como associada da Mancha Verde, diz que se sente muito mais respeitada dentro da torcida organizada, pois, segundo ela, os integrantes homens entenderam que as mulheres que estão lá realmente podem, gostam e entendem de futebol, portanto, eles acolhem o público feminino. “Hoje em dia as mulheres vão porque elas curtem e porque elas têm todo o direito de estar lá. Então, considero bom torcedoras de todos os times fazerem esta frente. A gente vai estar aqui e se você não gosta é um problema seu”, completa.

A gremista Mirena Ruiz, 25 anos, estudante de Fisioterapia, descobriu um amor pela região sul do país que influenciou até na relação que estabeleceu com o esporte. Ainda menina, Mirena assistia aos jogos de domingo à tarde pela televisão, o que fez ela se encantar pela prática e, inclusive, jogar quando criança. Na adolescência o gosto por futebol aumentou e, desde então, segue com ela. A estudante é paulista, mas morou por alguns anos em Porto Alegre, onde pôde acompanhar de perto os jogos do Grêmio. Em 2016, voltou a morar São Paulo e conta que foi mais difícil torcer novamente à distância. Por isso, como uma saída para não sentir-se sozinha, ela se juntou aos irmãos de clube e começou a frequentar bares de torcida gremista na cidade.

Assim como muitas mulheres, Mirena já encarou situações de desrespeito e preconceito. Além de ter sido perseguida até o metrô por torcedores do São Paulo, numa noite segunda-feira após uma partida do Brasileirão em 2017, a gremista já teve um almoço com a família interrompido em um restaurante por torcedores do Santos, que a ameaçaram por estar com a camisa do Grêmio. “Os caras me puxaram e falaram que se eu não tirasse a camisa eu iria apanhar, não importava se eu estava com a minha família…E que era para o meu pai me ensinar a ser mocinha, porque futebol não é lugar de mulher”, relata.

Com o intuito de evitar mais situações de vulnerabilidade, Mirena costuma ir aos jogos acompanhada de outras pessoas que, em sua maioria, fazem parte da Tribuna 77, uma torcida organizada do time que visa a proteção de torcedores, principalmente mulheres. E, para aquelas que ainda têm receio de ir ao estádio por conta da violência, a estudante diz: “Gurias, para tudo, o nosso lugar é a gente quem escolhe. Seja no futebol ou no dia a dia, temos que bater o pé e mostrar que o nosso lugar é lá”.

Mikaela Paim, corinthiana, 30 anos e sommelière, também conheceu o futebol muito nova. “Com quatro anos de idade eu já estava no estádio. Eu era o tipo de criança que ficava mais com homens do que com mulheres, sempre no colo do meu pai, assistindo aos jogos”. Ela conta que inicialmente fazia isso para ficar mais tempo na companhia do pai; aos poucos, foi começando a gostar de verdade, e hoje, os dois assistem juntos, acompanhados de uma boa cerveja. Numa conversa descontraída, relembrou seu primeiro jogo ao vivo, levada pela mãe. Pacaembu, um clássico. São Paulo x Corinthians, com vitória corinthiana e direito a quebra-quebra no final.

Mikaela Paim, sommelière e corinthiana roxa.

Antes de sair dos gramados para se dedicar à profissão de sommelier, Mikaela, que começou a praticar este esporte aos 9 anos, foi jogadora da Seleção Paulista de Futebol, dos 16 anos aos 20. E conta que, nesta trajetória, além de fazer muitos amigos jogando, fez diversos amigos torcendo, pois entende que este costume de se reunir para ver futebol ou para um churrasco é uma manifestação social. “Eu sempre estive rodeada de pessoas que gostam desse esporte, assim como no meio disso tudo têm amigos que trazem amigos que se tornam nossos amigos”, comenta, sem medo de repetir a palavra ‘amigos’.

A auxiliar administrativa Mariana Kasten, 22, é piracicabana e também jogava bola na infância. O XV de Piracicaba é muito tradicional no município do interior paulista e, por esta razão, se faz presente em sua vida desde tão cedo. Levada pelo pai e pelo tio, ela começou a assistir frequentemente aos jogos no estádio – o famoso Barão de Serra Negra – aos dez anos. Mas, apesar de seus familiares apoiarem, ainda são receosos quanto às caravanas (realizadas por uma das torcidas organizadas do time, a Esquadrão).

Mariana Kasten em uma partida no Estádio Barão de Serra Negra, casa do XV de Piracicaba. Foto: Arquivo pessoal.

Embora exista a preocupação da família, Mariana garante que, tanto nas caravanas, quanto no estádio, se sente muito acolhida, “a torcida é totalmente familiar e amigável, porque todo mundo se conhece e todas as vezes são as mesmas pessoas”. O estádio é o lugar onde a jovem fica à vontade e pode extravasar. Para ela, eventos como o encontro das mulheres de arquibancada são importantes para que o público feminino possa ocupar o seu lugar .“Todas as mulheres que estão envolvidas com futebol, seja jogando, torcendo, na parte técnica ou diretoria, são símbolos de resistência, porque esse ainda é um meio machista”, diz.

Após conversar com estas torcedoras, fica evidente que o machismo ainda está enraizado no mundo do futebol. Mas fica também evidente a força com que o poder feminino vem crescendo e se reinventando. Mulheres estão, cada dia mais, lutando pelo espaço, pela voz e pelo respeito. E o fato é que, após toda a opressão, nenhuma delas desistiu do futebol. Então, lugar de mulher é onde ela quiser – e também nas arquibancadas. E elas sabem disso.