Pesquisadores, empresários e trabalhadores avaliam os impactos das tecnologias e da inteligência artificial no mundo do trabalho

Por Isabela Maximiano e Guilherme Santana

Orientação Chico Bicudo

Nos versos de “Ladainha”, escrito nos anos 1960, o modernista Cassiano Ricardo, numa espécie de desabafo visionário, já questionava, de forma contundente, a robotização de tarefas até então exclusivamente desenvolvidas pelo ser humano:

Por que o raciocínio,
os músculos, os ossos?
A automação, ócio dourado.
O cérebro eletrônico, o músculo
mecânico
mais fáceis que um sorriso.
Por que o coração?
O de metal não tornará o homem
mais cordial,
dando-lhe um ritmo extra-
corporal?

Numa livre adaptação, e pedindo licença ao poeta para fazer ajustes conectados ao nosso tempo, podemos sugerir uma segunda estrofe do mesmo poema que cantaria:

Para que levantar o braço para colher o fruto?
Tratores e colhedeiras de última geração o farão por nós.
Por que labutar no campo, na cidade?
Os computadores e os robôs o farão por nós
Por que pensar, imaginar, fazer um poema?
A inteligência artificial o fará por nós

O termo Inteligência Artificial foi inicialmente apresentado em 1956 por John McCarthy, professor da Universidade de Princeton, que a definiu como uma solução para os problemas que são reservados para humanos. Alguns dos principais estudiosos do assunto a descrevem como um sistema que tem o propósito de simular a inteligência humana, através de máquinas, algoritmos e padrões pré-definidos. Para o professor de Ciência da Computação da Universidade de Stanford, Nils J Nilsson, no artigo The Quest for Artificial Intelligence: A History of Ideas and Achievements, publicado em 2010 pela Cambridge University Press, “a inteligência artificial é a atividade dedicada a fazer máquinas inteligentes”.

Muito tem se discutido sobre a incorporação das tecnologias ao mercado de trabalho. As universidades de Oxford, no Reino Unido, e Yale, nos Estados Unidos, realizaram um estudo em parceria, intitulado When Will AI Exceed Human Performance? (Quando a IA Superará a Performance Humana), divulgado em junho de 2017 na Future of Humanity Institute, que sistematiza os resultados de uma grande análise feita por 352 pesquisadores que estudam aprendizado automatizado e reúne as afirmações deles sobre o progresso da Inteligência Artificial. De acordo com o trabalho, há 50% de chances de, em 45 anos, as máquinas ultrapassarem a performance humana em todas as suas funções; em 120 anos, todos os trabalhos estariam automatizados.

Trazendo esse debate para o cenário nacional, é possível sugerir, num primeiro olhar, que essa projeção talvez não se encaixe com tanta precisão à realidade brasileira, que ainda vive dilemas como os colocados pela reforma trabalhista. Contudo, já existem empresas no Brasil que utilizam a tecnologia para expandir sua produtividade nos negócios, como o laboratório Fleury, o Bradesco e a BRF (setor de alimentos/carnes). No dia-a-dia, já é possível visualizar os usos da Inteligência Artificial através dos assistentes virtuais nos smartphones, como a Siri (Apple) e Google Now (Android), que fazem a alegria dos usuários.

A professora de IA do curso de Sistemas de Informação da Universidade Anhembi Morumbi, Raquel Machado de Sousa, mestra em Engenharia da Eletricidade com ênfase em Ciência da Computação pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) na área de Inteligência Artificial e Redes Neurais Artificiais, acredita que o Brasil ainda está engatinhando em relação às tecnologias. “Agora que as indústrias estão começando a levar em consideração aprendizado de máquina para aplicar em seus serviços, a demanda hoje em dia por emprego de especialistas em machine learning vem crescendo muito e não tem gente para atendê-la”, afirma.

Já o doutor em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Waldir José de Quadros, professor do Instituto de Economia e membro do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT), afirma que, por não ter muitas empresas investindo ainda, o efeito da robotização não será sentido tão cedo por aqui. “No Brasil [a inteligência artificial] ainda está sendo introduzida muito devagar. No momento o grande problema, desde 2015, é a recessão.”.

Atento a esse debate, Marcelo Manzano, doutor em Desenvolvimento Econômico e mestre em Economia Social e do Trabalho pela UNICAMP, também membro do CESIT, diz que não se costuma dar muita atenção a este tipo de projeção e que a relação entre tecnologia e emprego não é de forma alguma passível de antecipações por meio de estimativas econométricas de longo prazo, pois não se pode saber como será o futuro.

Essas inquietações, vale ressaltar, não são uma novidade. Os professores Cândido Guerra Ferreira e Rachel Fernandez Borges, do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar) da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), publicaram em 1984 o artigo “O impacto da automação sobre o nível do emprego – algumas considerações”, apresentando uma reflexão a respeito dos desdobramentos que uma “revolução microeletrônica” poderia desencadear e a importância de um acompanhamento socioeconômico visando estas transformações estruturais.

O artigo articula um debate entre autores que acreditavam que a automação poderia provocar a redução do emprego e autores que defendiam que a tecnologia resultaria em rendimentos positivos. Os dois pesquisadores da UFMG trouxeram essa reflexão para o cenário brasileiro e registraram que o processo de automação ainda estava em estágio inicial e que os estudos realizados até então sobre os efeitos trazidos por ela ainda eram muito escassos. Os professores reiteraram que esse fenômeno fortaleceria ainda mais a tendência ao desemprego, em razão da crise econômica no Brasil, e porque grande parte dos equipamentos seriam importados.

Na prática, é possível observar concretamente alguns dos problemas apontados pelo artigo há mais de trinta anos. João dos Santos Vieira, no ramo da metalurgia há 48 anos, e Mauro Maiothz de Oliveira, no mesmo setor há 18, trabalham na EMS Tampas Plásticas. Eles confirmam as observações do estudo feito na universidade mineira a respeito dos efeitos da automação em suas áreas de trabalho. Atuando durante quase meio século no mesmo segmento, Vieira afirma ter testemunhado a saída de vários colegas de profissão em função das novas tecnologias. Oliveira admite ter passado um bom tempo desempregado e só conseguiu voltar ao mercado de trabalho após realizar cursos para se adaptar aos  CLP’s (Computador Lógico Programável) e aos CNC’s (Comando Numérico Computadorizado), sistemas que permitem o controle de máquinas e executam funções específicas por meio de programações.

De fato, a Inteligência Artificial já está inserida em áreas como a indústria metalúrgica, os sistemas de aprendizado, as redes neurais e as tecnologias de manufatura aditiva; no entanto, o Brasil ainda não é caracterizado como uma “Indústria 4.0”, um conceito que envolve automação industrial e sistemas ciber-físicos, como afirma Altair Garcia, assessor sindical do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Segundo ele, as entidades sindicais acreditam que esta tecnologia pode trazer retornos positivos, desde que não seja fruto apenas da iniciativa privada.

“O movimento sindical, junto com outros parceiros, inclusive no plano internacional, tenta prospectar quais indústrias que estão na sua base, analisar que tipo de inovação elas estão implementando e fazer uma discussão a respeito do impacto desta inovação, tanto pensando no processo como na saúde e segurança do trabalhador, visando o princípio da precaução”, explica o assessor.

Embora as entidades sindicais estejam atentas ao debate sobre as transformações que a metalurgia vai sofrer com o avanço da IA, Garcia afirma que o Brasil está progredindo em velocidade reduzida em relação aos países centrais, pois estes últimos priorizam o investimento em educação, inovação e desenvolvimento tecnológico e que, para o Brasil se colocar em um posicionamento protagonista, seria necessário que as próximas gerações estivessem bem qualificadas e educadas.

Fato é que muitas das áreas da metalurgia estão sendo impactadas, como a de plásticos, que faz fronteira com a nanotecnologia, trabalhando com grandes resistências e materiais mais flexíveis, associando a produção com impressoras 3D. Alguns sistemas integrados empresariais também já utilizam alguns elementos da IA, bem como a usinagem em alta velocidade, que trabalha com grandezas de parâmetros de corte e rigidez de sistema, resultando em uma produção mais eficiente. O setor está suscetível a grandes transformações, porém, no Brasil, as dimensões ainda não são muito conhecidas, pois as grandes empresas utilizam muito a IA, mas as pequenas ainda estão muito longe desta tecnologia, reforça Garcia.

O pesquisador do Núcleo de Economia Regional e Urbana e ex-professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP), Rodger Campos, também concorda que adicionar habilidade ao capital humano é essencial para que o trabalhador se ajuste a impactos que possam haver dentro da economia e do mercado de trabalho. “Ao habilitar as pessoas com educação, é dado a elas uma transitividade, muitas vezes entre ocupações maiores. É preciso começar a discutir como as pessoas com menos habilidade se colocariam no mercado de trabalho, quando houver essa substituição [das pessoas pela IA].”.

Otaviano Helene, professor do Instituto de Física da USP e representante da Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo (Adusp), fundada com o interesse de defender os interesses dos docentes da instituição, acrescenta mais uma variável ao debate. Ele afirma que o desemprego nada tem a ver com a questão tecnológica, pois para o sistema econômico vigente é interessante que um percentual da população esteja desempregada, como uma espécie de reserva técnica, pressionando o trabalhador a realizar seu serviço perfeitamente, por causa do risco de demissão. O professor também aponta o investimento na educação como a única maneira de solucionar o problema de baixas no mercado de trabalho.

Nesse sentido, grandes centros educacionais ao redor do mundo preveem a relação entre Inteligência Artificial e educação de forma otimista. O relatório Intelligence Unleashed, publicado em 2016 pela rede editorial britânica Pearson, acredita que a união dos dois elementos possibilitará novas formas de avaliação para medir a aprendizagem e que, ao contrário de profissões como motoristas e funcionários de supermercados, a educação é uma das áreas que evoluirá com as transformações tecnológicas.

Universidades brasileiras também têm investido em Inteligência Artificial, por meio da educação à distância. A EAD Laureate oferece ensino à distância para cinco instituições do país. A reitora da instituição, Josiane Tonelotto, acredita que o ensino puramente presencial já acabou, “o que eu acredito que vá acontecer daqui para a frente é a educação híbrida, que é parte online e parte presencial. Um bom professor sempre usa técnicas avançadas como parte da disciplina”, afirma.

De acordo com a reitora, o fim do ensino 100% presencial configura a necessidade de selecionar educadores que tenham competências em três pontos importantes para que seja realizado um bom trabalho: além de ter capacitação de mercado, respaldo profissional e discernimento pedagógico, é indispensável que o professor tenha conhecimento de tecnologia educacional avançado e esteja sempre conectado com o que está acontecendo, para aproveitar as melhores oportunidades.

O informativo “Considerações sobre o ensino à distância”, publicado no site da  Adusp em abril de 2010, faz alguns alertas sobre o EAD, compara a educação à distância do Brasil com outros países e enfatiza as consequências que uma eventual substituição do ensino presencial pode trazer.

“Diversos países adotam o EAD como algo adicional, buscando contemplar aqueles que – por motivo excepcional – não são atendidos pelo ensino presencial. Entre esses, estão prisioneiros, pessoas impossibilitadas de locomoção, aqueles que trabalham em tempo integral (estes últimos, sobretudo nos países e em cursos nos quais a educação superior é exclusivamente, ou quase exclusivamente, em tempo integral), militares engajados em regiões de fronteira etc. No Brasil, entretanto, tem se tentado adotar o EAD em substituição do ensino presencial, o que poderá comprometer gravemente a qualidade da formação dos profissionais de que o país precisa, em especial se o profissional assim “formado” tiver que atuar na “formação” de outros profissionais, como é o caso do professor.”

A Universidade de São Paulo também utiliza sistemas de gerenciamento de aprendizagem. O Moodle é um software que pode ser utilizado tanto para o ensino completamente online quanto para o apoio presencial, por meio de seus recursos e atividades. Gilvan Marques, representante da empresa no Brasil, afirma que as novas formas de aprendizagem esclarecem para o professor qual a facilidade e dificuldade do aluno, propondo atividades adequadas, de acordo com as necessidades específicas de cada um.

Os professores Rodger Campos e Otaviano Helene, no entanto, afirmam não utilizar a plataforma e acreditam que, apesar das transformações tecnológicas, as relações humanas são primordiais para a aprendizagem e a formação de redes de networking. “Se você tem uma sociedade que cada vez mais volta para um processo de aprendizado individual, não faz mais sentido falar de sociedade”, afirma Campos.

Além das áreas da Educação e Metalurgia, a Inteligência Artificial já desafia também o universo da Comunicação. O artigo “Emprego e bem-estar social na era da inteligência artificial”, de Cheng Li, especialista em políticas e sociedade contemporânea chinesa, publicado na 34º Carta Social e do Trabalho do CESIT em 2016, realça que o desenvolvimento da IA tem atingido de forma inconteste a “última linha defensiva” e mostrado que ocupações de alta demanda e mais qualificadas, como as de tradutores, jornalistas e contadores já se mostram vulneráveis e sujeitas a redução de postos de trabalho.

Em julho de 2017, o portal online The Verge noticiou que a Google está ajudando a financiar a criação da Inteligência Artificial jornalística na Europa, mais precisamente no Reino Unido e na Irlanda, com um investimento de R$ 2,6 milhões na agência de notícias Press Association. Na mesma matéria, Peter Clifton, editor-chefe da PA, garante que jornalistas humanos ainda serão vitais para o processo jornalístico, mas recorrer à Inteligência Artificial aumenta o volume de histórias locais que seriam impossíveis alcançar de forma manual. O jornal estadunidense Washington Post utilizou a Inteligência Artificial na cobertura das Olímpiadas do Rio em 2016, quando produziu conteúdos automaticamente para seu site e redes sociais. Em uma entrevista ao ReCode, portal afiliado ao The Verge, Jeremy Gilbert, diretor de iniciativas estratégicas do jornal, reforça que eles não estão tentando substituir os repórteres, mas libertá-los de tarefas como digitar dados de pontuações e quadro de medalhas, utilizando um software que faz isso em poucos segundos.

Victor Caputo, editor de Tecnologia e Ciência da EXAME.com, reconhece que a implementação da Inteligência Artificial no jornalismo já é uma realidade. “Claro que existem alguns testes, robôs escrevendo matérias, mas são coisas que ainda precisam de muita análise. O que imagino é que em algum momento vai ser muito fácil achar um robô escrevendo nota de jogo de futebol ou resultado de loteria, pelo o fato dele estar conectado com o campo de dados.”. Quanto à substituição do jornalista pela IA, Caputo não acredita nessa possibilidade. “Por outro lado tem uma produção muito mais sofisticada de material dentro do jornalismo e acho que o discernimento humano ainda é muito necessário hoje.”.

André Freire, secretário geral do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, diz que é preciso saber em que nível a Inteligência Artificial vai atingir duas coisas que são importantes para o sindicato e para a Comunicação Social. “Do ponto de vista do jornalismo, acho que temos que saber se não vamos estar à mercê de um jornalismo absolutamente controlado, sem a mediação do jornalista. Temos uma intermediação humana dentro dos valores da sociedade que refuta os abusos do poder sobre a informação. Não sei se isso pode se repetir com esse refinamento da informação, temos que pensar. Isso pode gerar consequências éticas, na qualidade, controle e democracia da informação, como também do ponto de vista do trabalho, principalmente se vai ter espaço para ter trabalhador. Nós não vamos mais ser necessários? Devemos continuar sendo.”

Freire afirma ainda que a Inteligência Artificial pouco tem sido discutida entre jornalistas, redações e no sindicato, pois a entidade está preocupada em manter os direitos dos jornalistas que estão sendo retirados em razão da reforma trabalhista.

Entre idas e vindas, acertos e erros, dúvidas e convicções, virtudes e problemas, o que se pode perceber é que a Inteligência Artificial vai ser construída no ritmo de cada país, dependendo do capital investido e das realidades singulares. Ela é um reflexo das relações sociais, das condições e projetos econômicos. Se bem empregada, tem o potencial de ampliar e gerar novas funções dentro do mercado de trabalho, a fim de atender às novas demandas da sociedade. Se mal utilizada, poderá desencadear inúmeras adversidades estruturais, como o desemprego. Diante disso, é fundamental que a IA seja analisada com cautela, testada e mediada, para ela se torne um avanço, não um retrocesso.

Citando Gilberto Gil, em sua canção “Queremos Saber”:

 

“queremos saber
o que vão fazer
com as novas invenções
queremos notícia mais séria
sobre a descoberta da antimatéria
e suas implicações
na emancipação do homem
das grandes populações
homens pobres das cidades
das estepes, dos sertões”.