Artistas de rua fazem dos fios e das linhas ferramentas para vestir a cidade

Por Safira Teodoro

“‘A infinita fiandeira’, conto do escritor moçambicano Mia Couto, conta a história de uma aranha que faz teias sem se preocupar com o propósito específico delas. Ela não faz teias nem para comer, nem para acasalar. Faz por arte. Eu sou a infinita fiandeira agora, e a ideia é espalhar teias por aí”, conta Fernanda Damigo, que faz parte do coletivo Meiofio, grupo que realiza intervenções artísticas em ambientes urbanos.
Fernanda integra o Meiofio desde 2015. Ela já se interessava pelo universo das pichações e dos grafites, mas foi por meio dos fios que encontrou uma forma de se expressar e também expor sua arte na cidade. O coletivo é composto ainda por mais seis mulheres: Carol Estopa, Ieda Yamasaki, Raquel Santiago, Keka Carrara, Nara Rosetto e Renata Laureano. Em conjunto, as sete realizam arte de rua, utilizando técnicas manuais como o tricô, crochê e bordados.
Uma intervenção do grupo, feita em 2016, por exemplo, transformou os foyers (salões de entradas nos teatros) principais do Sesc Palladium, de Belo Horizonte, e todo o entorno do prédio, com grandes teias vermelhas de crochê. Foi a partir dessa experiência que Fernanda teve a iniciativa de desenvolver o projeto também em São Paulo. Até hoje, sempre deixa uma teia crochetada por onde passa. Ao andar pelas ruas, se você prestar atenção pode encontrá-las colorindo pequenos espaços da cidade, como o tronco de uma árvore ou um poste.
Trabalhar com fios e linhas talvez remeta aos artigos decorativos feitos com esmero pelas avós em casa, mas, hoje, este ofício foi ressignificado: cobre o concreto, as grades, as árvores espalhadas pelas calçadas. A proposta do Meiofio é também trazer uma extensão das casas para as ruas, cuidar da cidade da mesma forma como cuidamos dos nossos ambientes domésticos. Deste modo, quer atrair a atenção dos passantes para locais para os quais normalmente não dão tanta importância. A intenção é estar na cidade – e não simplesmente transitar por ela.

Integrantes do coletivo Meiofio no Sesc Pompeia, SP – Foto de arquivo pessoal do coletivo

Nessa empreitada, o coletivo não está sozinho. Letícia Matos foi a “fiandeira” pioneira em São Paulo. Seu projeto de intervenção urbana, 13Pompons, ganhou vida em 2012; daí em diante, ela não parou mais. “A street art com tricô e crochê se difundiu muito mais lá fora. Quando eu comecei a fazer as intervenções aqui, na época, eu atuava quase sozinha. Se tinha outra pessoa que fazia, pode ser que ela tenha feito uma, mas não tinha ninguém que fazia com a mesma disciplina e a mesma constância que eu”, explica.
Tudo começou em uma praça: ela ensinava algumas amigas a tricotar e a fazer pompons. Tiveram a ideia de pendurá-los em uma árvore; ao contá-los, viram que eram treze, treze pompons. Daí surgiu o nome do projeto. “Nesse dia, pensei em fazer intervenções. Ninguém pediu, não tinha planejado nada, mas decidi que iria fazer uma por dia, até o meu aniversário. Quando eu contei eram exatamente treze dias até lá e desde então o número 13 me persegue!”, recorda.
Depois desta meta, continuou a vestir árvores e postes pela cidade, mas com uma frequência um pouco menor, duas ou três vezes por semana. Costumava dedicar a arte para algum amigo, tecia as artes em um local próximo à residência ou ao trabalho do presenteado. Assim, sempre que ele passasse pela alegoria, teria um motivo para sorrir. Ao colocar seu trabalho nas ruas, pode não só alegrar um amigo, mas uma cidade inteira.

“O bicho repaginava o mundo. Contudo, sempre inacabava as suas obras. Ao fio e ao cabo, ela já amealhava uma porção de teias que só ganhavam senso no rebrilho das manhãs.”                              Mia Couto, O Fio das Missangas

Letícia vestindo uma árvore com crochê e pompons na praça Gomes Freire, em Mariana (MG), 2015 – Foto de arquivo pessoal

As intervenções de Letícia começaram quase escondidas, pouco percebidas, depois foram ganhando proporções maiores, mas sempre tiveram o intuito de resgatar as técnicas manuais. “Comecei a perceber que no mercado as pessoas falam das coisas feitas à mão como super legais, mas ninguém quer pagar pelo que vale, enquanto são capazes de pagar por uma coisa cara feita por uma máquina. Então a ideia de trazer a intervenção é, além de ver a cor, pensar em quem parou para fazer, tecer este trabalho”, diz.
Para o Coletivo NaLã, que também realiza arte de rua e instalações utilizando técnicas manuais, o processo de tecer em conjunto é até mais importante do que a intervenção em si. O projeto é constituído pela dupla Priscila Curse e Fernanda Mafra. “A nossa motivação são as pessoas. O produto final pode ser incrível, a instalação incrível, mas para a gente o mais importante é essa construção durante o fazer”, explica Fernanda.
Ao lado dela, Priscila vestia um casaco inteiro crochetado. Cada parte da roupa foi feita por um conhecido seu. Apesar de ser uma peça única, carrega a história de todos que participaram daquele trabalho. O mesmo ocorre com as instalações do coletivo. “O que vai sair no final é uma consequência que a gente sempre ama, porque são várias vozes que se envolveram ali de alguma forma e deram o seu máximo”, diz Fernanda.

Fernanda e Priscila cobrindo árvore com macramê, em frente ao Sesc São Caetano, 2018 – Foto de Mateus Ribeiro

Priscila se conectou com as artes manuais em um ano difícil de sua vida, em 2012 terminou um relacionamento, seu avô faleceu e foi reprovada na faculdade de moda. A partir de cursos voltados para vestuários, mergulhou nas técnicas de artesanato e aprendeu cada vez mais sobre a manualidade e sobre si mesma. “A minha relação com o crochê mudou minha vida completamente, mudou meu propósito, minha relação com as pessoas, minha relação comigo e meu respeito pelo meu trabalho”, conta. Em 2014, conheceu o coletivo Agulha, e descobriu que havia outras aplicações para a arte têxtil além da moda, como intervir na cidade.
Já Fernanda se envolveu com o crochê dentro de uma instituição social em que é voluntária. Há tempos ela procurava algum projeto que pudesse contemplar os pacientes de uma forma diferente. Quando surgiu o Agulha, propondo uma instalação de crochê no espaço, Fernanda ficou fascinada. Correu para aprender e poder fazer parte da ação. Lá seu caminho se cruzou com o de Priscila e, depois de um tempo, fundaram um coletivo próprio, o NaLã.
Cada uma dessas mulheres carregou uma motivação pessoal para se aventurar nas artes têxteis, mas, ao decidirem realizar intervenções, precisaram estender este universo pessoal para a rua, para o coletivo.

De ponto em ponto

“Eu adoro artesanato. Este que a gente está fazendo, para mim é uma terapia, me relaxa totalmente”, relata Lurdes Cordon, enquanto borda um grande coração em ponto cruz, durante a oficina do Meiofio, no Sesc São Caetano.”E isso é uma corrente, né? Você aprende aqui e passa para outras pessoas. É super importante.”
Cátia Gomes Rodrigues também entrou na roda para aprender o bordado. Foi seguindo uma trilha de corações, feita pelo coletivo, desde a estação de metrô até o Sesc, com a filha Marília Rodrigues, de 7 anos. A menina gostou tanto que quis bordar logo dois corações, um seguido do outro. Só depois Cátia foi entender, a técnica feita na oficina era a mesma que a avó lhe ensinara quando ainda era criança, tinha a idade da filha. “Acho que é tão bom para ela, quanto para mim, que posso rever o que é arte manual. Porque eu não lembrava mais”, diz olhando para a Marília, que se entretia com o cruzar e transpassar dos fios.

Coração de ponto cruz no caminho entre a estação São Caetano e o Sesc – foto de Mateus Ribeiro

Por meio dessas oficinas, o Meiofio observa uma procura maior pelo artesanato em São Paulo. Mais pessoas estão preocupadas em desenvolver um consumo consciente na cidade, ter um vínculo com o produto que utilizam. Porém, o coletivo tem consciência de que se trata de um bolha social, a maioria ainda não se interessa pelo assunto. Colocar a arte têxtil nas ruas também é uma forma de sair deste círculo seleto de pessoas e se conectar com mais gente.
De acordo com a socióloga Ana Paula Cavalcanti Simioni, docente do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP), o desinteresse pelo artesanato ocorre devido a ideias vinculadas à industrialização, mecanização e urbanização. O otimismo em relação ao progresso disseminado no período compreendido entre o séculos XIX e XX ajudou a desvalorizar práticas ligadas à tradição e à cultura local, com a justificativa de que eram associadas a hábitos de atraso, à falta de civilização e a elementos que deveriam ser superados.

“Felizmente, isso tinha acabado, e os poucos que teimavam em criar esses pouco rentáveis produtos —  chamados de obras de arte  —  tinham sido geneticamente transmutados em bichos. Não se lembrava bem em que bichos. Aranhas, ao que parece.”
Mia Couto, O Fio das Missangas

Segundo a pesquisadora, existem, portanto, etiquetas valorativas e hierárquicas aplicadas a produtos e a produtores – e o que é considerado artesanato recebe menos prestígio e valor no mercado do que aquilo que é definido como arte. As fronteiras entre as duas nomenclaturas são móveis e historicamente circunscritas. Está nas mãos de alguns, que detêm meios e posição para isso, definir o que é e o que não é arte no sistema.
“Evidentemente hoje podemos fazer a crítica dessa visão unilateral, simplista e autoritária de ‘cultura’, em nome de concepções muito mais plurais”, comenta a socióloga Ana Paula. Para ela, manifestações culturais, modernas ou tradicionais, precisam ser respeitadas da mesma forma. “Esses termos, arte e artesanato, não devem ser ‘naturalizados’, eles são, em geral, termos em disputa”, afirma.
Devido a essa desvalorização, hoje em dia, muitos se conectam com o ofício mais tarde, depois de adultos. Ieda, por exemplo, integrante do Meiofio, não conheceu a técnica quando pequena, porque sua mãe não quis passá-la adiante. Só se voltou ao crochê quando já tinha duas filhas. Ambas estudavam na escola Waldorf, e todo ano a instituição realiza um bazar que inclui a venda de produtos confeccionados pelos pais dos alunos. Ieda contribuiu com o projeto crochetando. Gostou tanto da coisa que se envolveu cada vez mais neste universo, praticando e repassando a técnica.
Em oficinas realizadas pelo coletivo, gente de todas as idades se junta para entender a lógica dos fios, inclusive senhoras. Algumas ainda guardavam traumas do fazer manual nas épocas de colégio. No tempo delas, a atividade era obrigatória para meninas e, por conta da imposição, muitas acabavam não se dando muito bem com agulhas e linhas. Por meio das oficinas, agora já mais velhas e numa outra atmosfera, puderam descobrir uma nova forma de fazer crochê, tricô e bordados.
Ao fim de seus cursos, o Meiofio propõe que todos doem o resultado de seus trabalhos para a cidade, o que pode ser representado por arremessos de corações de crochês nas árvores ou pendurar bordados pelas ruas, cada dia é uma iniciativa diferente. Quem entra pensando que é puro entretenimento sai com outra ideia: esses cursos repassam história, repassam cidadania, transmitem arte para quem quiser aprender.

Letícia ensinando a fazer crochê de dedos e pompons em Pinheiros, SP, 2016 – foto de arquivo pessoal

Passar as técnicas adiante também é algo essencial para Letícia, por isso ela faz questão de continuar a dar cursos, como sempre fez. O grupo pequeno de amigas para quem ensinava em 2012 pôde se expandir, a partir da arte de rua. “Assim, daqui a trinta anos ainda vai ter quem faça tricô, crochê, macramê, enfim, porque é uma coisa incrível, porque, se não tivesse isso, não teria o que é tecido à máquina”, comenta.
No entanto, muitos têm vergonha de começar, por medo do fracasso. Nas oficinas do Nalã esta desculpa não funciona mais. Durante as aulas, a palavra “errado” foi banida. “Já ouviu falar do crochê freeform? Crochê freeform é um crochê errado, não tem receita, quanto mais errado mais lindo. É uma forma diferente de fazer, é um outro olhar”, conta Priscila. O coletivo já fez uma instalação inteira de crochê freeform, ela coloriu a varanda da 4° edição do Mercado Manual, em 2016, festival que dissemina a cultura do feito à mão, o que incentivou pessoas da oficina realizada no evento, que não conseguiam “acertar os pontos”, a se jogarem nas técnicas.
Priscila, do NaLã, aprendeu crochê com uma amiga chamada Samira. Fazia, desmanchava, não entendia e ela explicava de novo. Aprender é um processo lento, ela demorou meses para fazer seu primeiro quadrado, mas agora já crocheta de olhos fechados. A paciência, o tempo que Samira se dedicou para ensiná-la foi muito valioso para Priscila. Sempre pensa nisso quando dá aulas.

Varanda da 4° Edição do Mercado Manual, feita pelo coletivo Nalã – foto de arquivo pessoal do coletivo

Essa dimensão coletiva e de sociabilidade da arte é reforçada pela socióloga Ana Paula. “A arte constitui grupos sociais, ela os perpassa, os engendra. Trata-se de pensar o sistema artístico ‘como’ uma sociedade. Ou seja, também nos sistemas modernos a arte pode e deve ser vista como um vetor de conexão. Mas claro que nos grupos mais circunscritos, nos quais as tradições pulsam de modo mais forte e constante, pode-se, possivelmente, averiguar de modo mais claro tal conexão”, afirma.

O Fixar das teias

Instalar seus trabalhos pela rua trouxe uma nova relação com a cidade para o Meiofio. Keka, por exemplo, que mora em Osasco, passou a transitar mais por São Paulo, a conhecer novos lugares, por causa das intervenções. Todas as sete sócias também começaram a interagir mais com os transeuntes. Muitos ficam intrigados e param para perguntar, tirar fotos e elogiar.
O coletivo procura deixar suas “teias” em lugares movimentados, para atingir o maior número de pessoas possível. Algumas vezes pedem autorização, outras não, são barradas ora sim, ora não. Em um dia em que se reuniram para tecer, bordar, na calçada da avenida Paulista, foram abordadas por policiais. Eles deduziram que vendiam artesanato sem licença.

Keka amarrando coração bordado em frente a estação São Caetano – foto de Mateus Ribeiro

Letícia afirma não ter passado por um problema desta natureza. Lembra de apenas uma vez em que foi intervir em uma árvore dentro do Memorial 11 de Setembro, em Nova York. Já havia começado a aplicar o crochê, quando um guarda se dirigiu até ela dizendo que o local era particular. “Eu descosturei e fui embora. Mas o cara não me ofendeu, não foi grosseiro, chegou e falou numa boa. Quando você está colocando, as pessoas todas acham legal”, relata.
Apesar da recepção positiva da maioria dos que passam e observam, algumas intervenções são vandalizadas ou desaparecem da noite para o dia. Um crochê que Letícia colocou em um poste na rua Augusta, por exemplo, foi queimado. Ela ainda conseguiu ver toda a marca da trama no metal. Quanto às grandes teias de crochê, que o Meiofio espalhou em torno do Sesc Palladium, em Belo Horizonte, também não duraram muito tempo. Sumiram um dia depois de serem fixadas. Ao andarem pela cidade, as integrantes do coletivo viram uma de suas obras na parede de um morador. Ainda assim, não desistiram, instalaram as teias novamente. Na terceira tentativa do coletivo, as próprias pessoas da cidade se mobilizaram para que aquela arte fosse preservada.
Todas afirmam não se importar mais com isso; segundo elas, a partir do momento que o tricô, crochê ou bordado estão na rua, não pertencem mais a elas e sim à própria cidade. “Hoje em dia eu não dou bola, eu faço. Faço porque não é para eu ficar passando e vendo que está lá, é para alguém passar e ver. Se uma pessoa fez isso, pronto, já cumpri meu papel. Não dá para se apegar”, explica Letícia. Mas, como comenta Fernanda, trata-se do mesmo egoísmo de quem arranca uma flor bonita da raiz. Ela espera que essas atitudes mudem com o tempo.

Viver para fiar; fiar para viver

Todas as ‘fiandeiras’ começaram as intervenções investindo de seu próprio bolso. Aos poucos ganharam visibilidade, fundaram parcerias, cursos. Aconteceu dessa maneira, em 2012, com o projeto 13Pompons, que foi chamado para reformar móveis: cobrir cadeiras com crochê, colorir bancos com pompons, por exemplo. Quando Letícia deu por si, já possuía uma empresa e um produto.
“Tudo o que envolve a essência do projeto ainda existe, até mesmo nos produtos que eu faço. Eu não fico fazendo em larga escala, não estimulo as pessoas a consumirem loucamente. Eu posso dizer que eu vivo disso, mais de projeto do que de produto”, conta.
Já no Meiofio, só parte das integrantes têm o coletivo como principal fonte de renda. Para o Nalã, ainda é um sonho que não foi alcançado. Fernanda trabalha com arquitetura, Priscila com publicidade; à noite e nos fins de semana é que o coletivo acontece.
“Abrimos mão de estar, às vezes, com os nossos amigos, de viajar, mas é porque acreditamos realmente no que fazemos, em como isso impacta as pessoas, a cidade. Então para a gente não dói abrir mão de algumas coisas. A gente vara a noite felizona”, diz Fernanda, rindo. Priscila não consegue mais imaginar sua vida sem a arte têxtil, ter como principal sustento o Nalã é uma ideia possível para ela, esperam atingir esse objetivo.

“E dia e noite: dos seus palpos primavam obras, com belezas  de cacimbo gotejando, rendas e rendilhados”
Mia Couto, O Fio das Missangas

Teia de Fernanda, do coletivo Meiofio, em frente à estação São Caetano – foto de Mateus Ribeiro

https://youtu.be/v8DZ4ylFP8Y