A arte árabe pode ajudar a mente e o corpo de quem a pratica

Por Barbara Lima

A Belly Dance, também conhecida como dança do ventre, consiste em realizar movimentos com a parte inferior do corpo, acompanhados ainda pelos braços e mãos. Além da sensualidade e de uma estética que chama a atenção justamente pela leveza e harmonia de seus gestos, a dança também traz muitos benefícios físicos e psicológicos a seus adeptos. A prática, no entanto, envolve custos razoáveis (em média, cento e trinta reais por mês, com direito a uma aula por semana), embora existam centros culturais espalhados pela cidade que fornecem aulas gratuitas.

Segundo a educadora física e professora de dança do ventre, Kelly Donato,de 30 anos, a prática leva à correção de postura, fortalecimento e definição muscular, tonificando os braços, as pernas, os glúteos e o músculo do abdômen, em especial, ajudando também na perda de peso – segundo ela, em uma aula com duração de um hora, é possível queimar 500 calorias.

Além dos aspectos físicos, há ainda os psicológicos, como aumento da auto-estima, da autoconfiança, o estimulo da criatividade e da desinibição. Essas alterações comportamentais são perceptíveis nos primeiros meses de aula. “O principal é aumento da auto-estima, confiança e combate à timidez. Isso é muito observado nas mulheres que dançam”, reforça.

A dança do ventre melhora o funcionamento do organismo

A dança do ventre melhora o funcionamento do aparelho digestivo, dos rins e dos órgãos sexuais devido às repetições dos movimentos.
Imagem: Adelita Chohfi

Kelly também garante que a modalidade não oferece restrições. Mulheres de qualquer idade, peso ou altura podem dançar. Caso haja algum problema muscular, como a tendinite (inflamações nos tendões) ou contusões nos joelhos, panturrilhas e tornozelos das mais diferentes naturezas, os movimentos devem ser mais singelos, com supervisão mais próxima e intensa, para que se combine a qualidade do aprendizado com o respeito a todos os limites do corpo. A dança também pode ser praticada com frequência, mas o mais comum é de uma a duas vezes por semana, abrindo espaço, assim, para que haja conciliação com outros exercícios físicos.

Outras atividades físicas

Combinar outros exercícios físicos ajuda na eficácia da dança. Duas boas associações acontecem com a Musculação, que trabalha a musculatura corporal com pesos e aparelhos ginásticos específicos para um bom desempenho, e o Pilates, que usa a força do próprio corpo e pode ser executado em aparelhos específicos ou no solo, com colchonetes e bolas infláveis.

Kelly enfatiza a importância de se definir com precisão os objetivos do treino de musculação ou pilates para quem tem a dança do ventre como prioridade. E faz um alerta: “O indicado é que o treino de musculação seja adequado para quem dança. O treino que tem como objetivo a hipertrofia, por exemplo, tende a fazer com que os músculos do corpo ganhem massa corporal, o que causa o encurtamento da dançarina, ou seja, faz com que os músculos dela se retraiam e percam um pouco de tamanho e elasticidade, o que não é interessante para a dança”.

As atividades aeróbicas, como caminhada, corrida, pedalada ou natação também são bem-vindas, porque garantem uma resistência física maior para a bailarina e assim ela consegue aproveitar a série de movimentos, ficando menos cansada e aplicando toda a sua energia à dança.

Ponta pé inicial

Muitas mulheres têm receio de começar e se envolver com a dança do ventre, por medo de ter pouca coordenação, a vergonha de ter que usar trajes que cobrem pouco o corpo ou por não pertencer aos padrões de beleza que a sociedade impõe.

Débora Laurentino, de 36 anos, enfrentou todas essas angústias antes de se matricular nas aulas. A ex-coordenadora de Recursos Humanos conta que achava que era impossível se sentir confortável, por ser uma modalidade de aspectos sensuais.

Mas, após ser incentivada por uma amiga, a aluna, que hoje é praticante há nove meses, começou a investir na dança e, após cinco meses de aulas semanais, já tinha eliminado peso, além de descobrir um hobbie e alavancar sua auto-estima.

“Com a prática eu percebi que, mesmo gordinha, consigo me achar bonita e sensual, reproduzindo os movimentos da dança”, comenta Débora, que se libertou dos estereótipos estéticos e deu passe livre para a sua feminilidade poder ser explorada.

Para ter um resultado maior na dança do ventre, Débora pratica também exercícios funcionais, que trabalham partes do corpo que ajudam na flexibilidade, condicionamento e equilíbrio.

Assoalho Pélvico: o músculo do ventre

O músculo assoalho pélvico é responsável por comandar funções relacionadas à bexiga, reto, órgãos reprodutivos femininos e pela função sexual. A dança do ventre se concentra exatamente nesse músculo e os movimentos o fortalecem e rejuvenescem, fazendo com que bexiga não ceda, diminuindo incontinência urinária e contribuindo para regular ainda funções fecais e de gases. Débora reparou nessas mudanças já nos três primeiros meses de iniciação. Ela comenta: “Ao espirrar ou fazer algum esforço, eu estava soltando um pouco de xixi e isso já estava me incomodando. Depois da dança do ventre, nunca mais aconteceu”.

A educadora física Kelly explica que a dança do ventre trabalha muito a contração do quadril, até a parte inferior do abdômen, juntamente com o assoalho pélvico, e os movimentos em grande quantidade de repetição fazem com que enrijeça os músculos internos e externos. “A dança do ventre ajuda porque usamos muito o encaixe e desencaixe do quadril e toda musculatura em volta acaba sendo beneficiada”, explica.

Disciplina e didática da dança do ventre

Karina Barros, de 34 anos, é dona e professora de uma escola de dança do ventre desde 2006. A gestora, que conheceu a dança através do Balletclássico,explica que a didática nessa prática é um pouco diferente das outras modalidades.

Ela conta que o tempo de formação gira em torno de seis a oito anos, mas que há variações e, dependendo do desempenho da aluna, pode durar mais ou menos tempo, além de haver metodologias diferentes de ensinar a dança, que mudam de academia para academia, mas sempre aproveitando os mesmos conceitos de movimentação dos músculos inferiores, sexualidade e disciplina.Existem ainda cursos de pós-formação, que têm como finalidade aperfeiçoar os movimentos, aprender didáticas para dar aula, além de estar apta para entrar no mercado de trabalho e a partir daí ter mais capacitação profissional, tanto para ensinar outras pessoas quanto para apresentações em shows. Os cursos podem durar quatro anos ou mais. Os estágios de aprendizado são divididos entre iniciante, básico, intermediário e avançado. E, a partir do último estágio, propostas mais profissionais começam a aparecer, como apresentações em casa de shows ou em ambientes artísticos e afins.

Karina afirma ainda que muitas alunas confundem o horário de aula com um momento de recreação, o que não é adequado. Para ela, por mais que a dança seja um hobbie ou um momento de lazer, é importante frisar que ter disciplina é uma exigência. Ter comprometimento e educação são imprescindíveis para um bom resultado na dança.

A professora pontua as atitudes intoleráveis em sua aula, que são: atrasos, conversas paralelas e o uso do celular durante os exercícios. E adverte: “a dança é uma prática que exige disciplina, e para evoluir é preciso estudar”. Ela enfatiza que a disciplina para um bom desempenho na aula é determinante para que a bailarina se forme num tempo hábil, para que aprenda corretamente os movimentos e assim dê continuidade na dança.

A dança do ventre como aliada contra a luta de um AVC

Silvia Carneiro, de 30 anos, sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) em 2016 e conta como a dança do ventre, que pratica há quinze anos, a ajudou no processo de recuperação. Logo depois de sentir uma dor de cabeça forte, ela ligou imediatamente para sua mãe, que a levou para o hospital, já desmaiada. O diagnóstico veio logo em seguida. Ela teve o lado esquerdo de seu corpo totalmente paralisado após o ocorrido.

Após dois anos, Silvia se encontra completamente recuperada, graças a acompanhamento médico, o processo de fisioterapia e também por conta do tratamento alternativo envolvendo a dança do ventre. Ela começou com a fisioterapia comum e depois voltou a praticar a dança. Ficou positivamente surpresa. “Adança me ajudou muito”, confirma. Isso porque a prática, juntamente com a fisioterapia, a ajudou a lapidar e fortalecer seus movimentos, além de impulsionar seu raciocínio.

A fisioterapeuta Natasha Orlandini, de 28 anos, faz ressalvas e explica que Silvia sentiu essa diferença entre a fisioterapia e a dança do ventre porque o corpo dela já estava condicionado aos movimentos da dança, então ela não teve que começar do zero. Além disso, o processo de fisioterapia é menos detalhado do que a dança do ventre, e procura estimular movimentos que o ser humano usa diariamente (andar, correr). A profissional acrescenta: “Quando ela começou a dançar novamente depois do AVC, foi como se ela estivesse aprendendo a dançar, mas com uma vantagem de que o corpo um dia já havia praticado tais movimentos”.

A combinação entre a dança e a fisioterapia teve um desempenho positivo, mas é importante lembrar que uma prática não anula a outra.

Silvia recuperada e se apresentando no Mercado Persa

Silvia recuperada e se apresentando no Mercado Persa (evento anual conceituado pela Dança do Ventre) em 2017.
Imagem: BellyDance Records

A professora conheceu a dança através de um centro cultural e conta as mudanças (de quinze anos atrás) para hoje em dia. Comenta que a falta de recursos era muito grande, havia pouca informação sobre a prática na internet, havia pouco figurino e também poucos lugares que forneciam aulas de dança do ventre. Uma saída era esperar que as músicas e coreografias chegassem por meio de fitas cassetes importadas do Egito.

Agora, com a tecnologia, é bem mais fácil encontrar tutoriais na internet, conversar com outras alunas de lugares diferentes que tenham experiências novas para agregar à sua formação e assim explorar o mundo da dança do ventre em apenas um clique.

Para melhores resultados, como a melhora da elasticidade, da concentração e da execução dos movimentos, Silvia concilia a dança do ventre com o balletclássico, que auxilia na concentração, na disciplina, na flexibilidade e no equilíbrio corporal.

Preconceitos, estereótipos e assédio

A dança do ventre tem naturalmente uma atmosfera de sensualidade, e pessoas leigas no assunto acabam confundindo essa dimensão com características eróticas, o que não procede. Por conta dessa confusão, algumas mulheres têm a impressão de que serão julgadas como vulgares ao iniciar a prática.

Ainda por conta dessa percepção equivocada sobre a prática, Karina conta que no começo de sua carreira sofreu assédio virtual, via e-mail, e por lá recebeu numerosos convites de prostituição, inclusive por agenciadores de mulheres e, principalmente, propostas para ser acompanhante de luxo. “Isso aconteceu no começo, minha carreira não estava consolidada e as pessoas confundem sua profissão de dança”. Ela diz que é muito desconfortável perceber como as pessoas confundem profissões completamente distintas.

Para Silvia, essas situações desagradáveis acontecem porque as pessoas não têm conhecimentos aprofundados referentes à prática da dança, que no Egito é religiosamente respeitada. Ela comenta: “Às vezes sinto olhares pejorativos e de reprovação quando digo que pratico dança do ventre. É uma dinâmica sensual, e não erótica”.

Para Karina, a mídia ajuda a reforçar esse estereótipo, banalizando e sexualizando a dança do ventre. “Teve até uma novela que expôs mulheres dançando sexualmente uma música cultuada com muito respeito na Arábia e nem se deram o trabalho de pesquisar o valor da obra. Foi um desrespeito enorme”, relembra a dançarina.  Felizmente, os desconfortos tendem a desaparecer, com a propagação de informações verdadeiras e que esclarecem dúvidas. Dança do ventre é, acima de tudo, saúde, e as praticantes só têm a agradecer pela oportunidade de serem bailarinas.