No Brasil os produtores rurais são mal vistos, julgados como verdadeiros vilões por supostamente acabarem com os recursos naturais, desmatarem a natureza, utilizarem defensivos de maneira descomedida etc. – será que realmente todos eles são vilões?

Por Marina Sá

Catherine Deneuve, atriz francesa de 73 anos, recentemente foi reconhecida com os prêmios Lumière na França e os dedicou aos agricultores de seu país. A maneira como os agricultores são tratados na França, beira o heroísmo. No Brasil, as críticas extrapolam o real valor do agronegócio, reduzindo-o ao problema a ser combatido, o que, definitivamente, não é verdade. Assim como qualquer outro setor, o agronegócio tem seus desafios, mas deve, sim, seguir crescendo e não recuar apesar das intempéries.

A roupa que você veste, se por acaso for de algodão ou seda, é proveniente da agricultura. As folhas que você utiliza nos estudos e no trabalho vêm do Eucalipto. A energia elétrica que te faz ter banhos quentinhos, luz em casa e tomadas para carregar seu celular, ligar o notebook e o fogão elétrico, vem majoritariamente das usinas hidrelétricas. E seu principal meio de subsistência, sua alimentação, desde a ervilha que come até os variados tipos de carne, vem do agronegócio.

O agronegócio está em tudo o que consumimos, e conforme há o crescimento populacional, é necessário ampliar os modos de produção. Em 2000 o número de habitantes no Brasil não chegava a 170 milhões de pessoas, atualmente somos mais de 207 milhões. Para alimentar, vestir, abastecer de diferentes maneiras uma massa, é necessário alguns ajustes, e, consequentemente, aumento da produção, o que significa originar mais pastos e áreas de plantio.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), depois de oito trimestres de queda consecutivos, o PIB teve alta de 1,0% no primeiro trimestre do ano, e o principal setor responsável por essa alta foi a Agropecuária, que cresceu 13,4%, o que evidencia que o agronegócio tem caminhado na contramão da crise e crescido cada vez mais.

Em abril o desemprego atingiu 14 milhões de pessoas, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE, e enquanto a maior parte dos setores está fechando postos de trabalho, só em maio a agropecuária abriu mais de 46 mil novas vagas, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). É inegável que o agronegócio puxa a economia, mas ainda assim, é preciso lutar contra a imagem de vilões que os produtores ganharam.

Desenvolvimento sustentável e responsabilidade ambiental 

Com a crescente necessidade da criação de pastos e áreas de plantio, o desmatamento ilegal passou a ser uma realidade e um grande desafio contemporâneo. Alguns produtores desmatam áreas protegidas para tais fins. Há maus representantes em todas as áreas de trabalho, e no agronegócio não seria diferente. Mas ainda assim, o Brasil é a maior potência em preservação ambiental, com mais de 66% de seu território recoberto por vegetação nativa, segundo dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), resultado das informações tabuladas no Cadastro Ambiental Rural  (CAR).  

As legislações do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e do Ministério do Meio Ambiente (MMA) protegem os recursos naturais e intensificam desenvolvimento sustentável. O Projeto de Monitoramento do Desmatamento dos Biomas Brasileiros por Satélite (PMDBBS), do MMA, auxilia na identificação de pontos desflorestados. 

Roberto Rodrigues, ex-ministro de Agricultura

Roberto Rodrigues, ex-ministro de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, em seu escritório no Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas. (Foto: Marina Sá)

O engenheiro agrônomo, coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Dr. Roberto Rodrigues, também ex-ministro do MAPA, explica que há uma fiscalização que é, sobretudo, realizada pelo Ministério do Meio Ambiente. Em muitos casos o Governo Federal não tem estrutura de pessoal para fiscalizar tudo, então faz convênios com estados e até com municípios que ajudam na fiscalização, o que é menos eficiente porque quem tem a lei e a exige é o governo federal. “O fato é que tem uma legislação federal muito rigorosa. Nosso código florestal é um dos mais rigorosos do mundo, nossa legislação ambiental também. Na área de defensivos agrícolas mais ainda. O problema é como exercer a fiscalização e a punição”, pontuou. 

Grande parte das empresas possuem projetos voltados para o reflorestamento e proteção de recursos naturais, como o São Martinho, um dos maiores grupos sucroenergéticos do país. Acompanhei uma palestra da engenheira ambiental Flávia Moretto Paccola, Analista de Meio Ambiente da Usina de Iracema, em que ela explicou o projeto Viva a Natureza, originado em 2010 com o intuito de não somente preservar a natureza, mas conscientizar a respeito do consumo dos recursos naturais. “Para termos água, nascentes, qualidade dos nossos recursos, precisamos ter área reflorestada e área verde. Além disso tem a parte de conscientização ambiental, então nós sempre utilizamos esse projeto para levar às escolas, crianças e colaboradores, para terem consciência de que precisamos preservar o solo, a água. Hoje, aqui na usina de Iracema, nós temos mais de um milhão duzentos e sessenta mil mudas plantadas. No grupo São Martinho é um montante de mais de três milhões de mudas. No protocolo agroambiental, esta unidade planta cinquenta mil mudas por ano de arvores nativas, exóticas e frutíferas dentro dessas nossas áreas de preservação”, exprime Flávia.  

Usina Iracema - Iracemápolis/SP

Usina Iracema (Grupo São Martinho) – Iracemápolis/SP. (Foto: Marina Sá)

A engenheira também explicou que em relação às áreas de preservação, a parte mais fácil do reflorestamento é o plantio, o que é difícil é a manutenção, porque as espécies invasoras, grama, formigas, crescem e se desenvolvem muito mais rápido do que as próprias árvores. Anualmente é necessário que façam a manutenção daquele reflorestamento. O coroamento, que é limpar a muda em volta, a roçagem manual, aplicação de algum inseticida e herbicida para remover o mato que está competindo nutrientes e espaço com a árvore. 

Utilização de insumos como fertilizantes, agrotóxicos e agroquímicos 

O Brasil tem cerca de duas safras e meia ao ano, e essa produtividade aumentou o uso de alguns insumos, como fertilizantes, agroquímicos e agrotóxicos. Mal utilizados, podem acarretar consequências danosas ao meio ambiente, ao ser humano e, principalmente, àqueles que estão diretamente expostos a esses produtos. Para os produtores que aplicam esses insumos, a tecnologia dá o suporte necessário. Hoje há máquinas que permitem seu manuseio sem contato direto, como os pulverizadores. 

A Embrapa, pertencente ao primeiro setor, vinculada ao MAPA, desenvolve pesquisas para abrandar o impacto da utilização desses insumos. Trabalhando em conjunto também com o Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária (SNPA), transforma o modelo de agricultura e pecuária no país. Para se ter uma ideia da importância do trabalho desta instituição, a Embrapa foi responsável por incorporar uma vasta área de terras degradadas dos cerrados ao sistema produtivo. Hoje a região é responsável por quase 50% de toda a produção de grãos no país.  

 “Uma das nossas linhas de trabalho é a microspecção, que é a parte de desenvolvimento de produtos biológicos, ou seja, de produtos que consigamos manejar o problema de pragas e doença. Estamos em um país de clima tropical onde a mesma coisa que favorece, como a grande produção, reflexo das duas safras por ano, também favorece a ocorrência de mais pragas e doenças na agricultura. É um balanço que a gente precisa trabalhar. Hoje nossa demanda de fertilizantes é maior do que o país pode produzir. Somos um grande importador de fertilizantes, o que causa uma certa insegurança”, relata o agrônomo Dr. Marcelo Boechat Morandi, Chefe Geral de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa. 

Combate à extrema pobreza no Brasil 

A tecnologia na produção é de uma proporção inimaginável para pessoas que, assim como eu, nasceram no meio urbano. Particularmente, fiquei estarrecida quando conheci uma das fábricas desses maquinários, a CNH Industrial, pois são equipamentos tão grandes que, sem exageros, me lembrou o filme Transformers. E é fato que hoje a maior parte da produção é feita por essas máquinas. A modernidade avança cada vez mais no campo. O plantio, a irrigação, a aplicação dos defensores, a colheita, tudo isso a máquina faz, com o controle de uma única pessoa. São colheitadeiras, plantadeiras, pulverizadores, enfardadoras, implementos, tratores e mais. O custo varia de 50 mil reais até 2 milhões – sem contar a manutenção, combustível e conhecimentos que são necessários para operação dessas máquinas.  

 “Nós temos no Brasil cadastrados mais de quatro milhões e meio de propriedades rurais que declaram alguma renda, logo, que produzem algo. Só que desses 4,5 milhões, somente 500 mil correspondem por quase 90% da produção. São quase 4 milhões de propriedades com uma renda bruta muito baixa, ou seja, pessoas que estão vivendo de subsistência. Ainda temos uma concentração de produção em um grupo não tão grande de propriedades. A maior parte dessas pequenas propriedades rurais estão concentradas no nordeste brasileiro. O grande desafio de superação da pobreza no Brasil ainda é essa questão da distribuição de renda. Essas pessoas não estão sendo beneficiadas dessas tecnologias que estão sendo desenvolvidas, seja por falta de renda, de educação ou de assistência técnica. Nós precisamos atingir esse público”, disparou Dr. Boechat. 

Produtora rural em Holambra/SP

Produtora rural em estufa de antúrios – Holambra/SP. (Foto: Marina Sá)

 Dr. Roberto Rodrigues sugere que há três soluções para a extrema pobreza dos pequenos produtores rurais. Uma delas é a cooperativa, pois agrega valor, reduz o custo de produção e aumenta a rentabilidade. “Há um grande risco de começarmos a perder os produtores pequenos, salvo se as cooperativas começarem a cuidar deles. Mesmo assim, a ameaça do pequeno é muito grande, e ele é fundamental para o tecido social do campo. É necessário o pequeno produtor assim como há o pequeno consumidor e o feirante”. Outra hipótese sugerida pelo Dr. Roberto é ter produto de valor agregado alto. O produtor pode ter um espaço pequeno e ainda assim produzir escargot. Por exemplo, em Holambra, há um minhocário que produz minhocas em 100 m² e vende para pescadores. Solução originada de países desenvolvidos é o subsídio. Hoje, na Suíça, uma vaca de leite tem tanto subsídio quanto o salário de metade da população do mundo. O produtor europeu é um domador de subsídio. 

Marketing – a ferramenta que falta no agronegócio 

Em linhas gerais e de forma um tanto pessoal, confesso: falhei enquanto futura jornalista. Há cerca de oito meses cortei o meu consumo de carne e desesperadamente busquei informações sobre como funciona essa indústria. A maioria dos documentários sobre o assunto são produzidos em outros países, e as realidades são diferentes. Acreditei piamente no que vi e esqueci de olhar o outro lado – o produtor. O contato com o rural é escasso, não chegam todas as informações necessárias à população urbana – só quem procura, e de certo posso afirmar que encontrarão “meias verdades”, informações por muitas vezes rasas e tendenciosas, por isso aconselho sempre procurar fontes oficiais, ligadas ao governo federal.  

Falta informação, falta estratégia. Marketing. Empenho de cada comunicador. A Rede Globo tem auxiliado muito na propagação da imagem do agronegócio com a campanha “Agro é tech, Agro é pop, Agro é tudo”. Aos poucos as pessoas estão reconhecendo o real valor do agronegócio – o herói nacional que precisa de ajustes, mas, acima de tudo, precisa ser enaltecido. Desejo que com o passar do tempo as informações sobre o que é rural se popularizem, e tomo como missão fazer parte disso.