Texto e fotos: Maira Di Giaimo
Da Agência de Reportagens
Orientação: Prof. Alexandre Possendoro

Alunos deficientes visuais em aula de dança em escola em São Paulo / foto de Maira Di Giaimo

Alunos deficientes visuais em aula de dança em escola em São Paulo / foto de Maira Di Giaimo

Professores de escolas de dança de São Paulo estão ensinando dança de salão a um tipo de público particular que tem muito a ensinar no quesito superação: são alunos deficientes visuais que não aceitam ficar parados e estão se tornando “pés de valsa” com a ajuda de mestres da dança em pelo menos duas escolas paulistanas.

Uma delas, no bairro da Vila Mariana, é a Associação Fernanda Bianchini. A instituição sem fins lucrativos é conhecida como a primeira companhia de balé para cegos do mundo. Fundada há 20 anos, já participou de muitos festivais e até da abertura da paraolimpíada da Alemanha, em 2012.

Rafael Rangel, conhecido como Kubano, trabalha voluntariamente na associação há quatro anos como professor de dança de salão. Ele entrou para ajudar uma das alunas, Gisele Aparecida Camilo, que queria muito se profissionalizar na dança de salão, mas não tinha dinheiro para ingressar nas academias comuns. “Aí, eu conheci o instituto. Não sabia que isso existia. E eu comprei a ideia”, diz Kubano.

O professor contou que as primeiras aulas foram difíceis. Ele lembra que chegou até a fazer o “absurdo” de pedir aos alunos que “olhassem” para ele, para aprenderem os movimentos. “Mas percebi que eles não ligam pra isso. Agora, faço até piada, e eles mesmos também fazem”, brincou Kubano.

A turma tem por volta de 20 alunos de idades variadas. A maioria deles está perdendo a visão ou perdeu há pouco tempo. De acordo com o professor Kubano, a dança traz inclusão e ajuda os alunos a superarem seus medos e traumas.

“Eles se sentem capazes de tudo. Por mais que seja velado, tem uma ‘discriminaçãozinha’ quando se pensa: ‘como será que cego dança?’ Mas aqui, eles dançam e participam de bailes. Isso traz uma sensação de ‘não tem problema nenhum’”.

“A dança é sentida”, diz aluna

Para especialistas, dança desenvolve autonomia de praticantes / foto de Maira Di Giaimo

Para especialistas, dança desenvolve autonomia de praticantes / foto de Maira Di Giaimo

É o caso de Gisele Camilo, aluna deficiente visual, que começou como uma das estudantes de balé clássico da entidade e hoje faz parte da Cia Ballet de Cegos da associação.

“Desde criança eu sempre quis ser professora de dança. Tive consciência que a gente consegue sim. É só querer. Precisei lutar contra muitos preconceitos, mas depois que encontrei a associação, eu tive com quem lutar. Quero mostrar para as pessoas que nada é impossível e que nem tudo é visual. A dança é sentida e não é olhada”, disse Gisele, aluna esforçada que também está cursando faculdade de educação física e já neste ano deve começar a dar aula de ritmos.

Outro exemplo de superação vem da professora de dança Solange Gueiros que dá aulas na escola de dança Passos e Compassos, também na zona Sul da cidade. Em 1998, ela sofreu um acidente de carro e teve de imobilizar provisoriamente os dois pés. Para continuar dando as aulas, mas impossibilitada de se mover e de dançar, ela teve de aprender a ensinar sem conseguir “mostrar os passos” aos alunos. “Com esse aprendizado, defini o método de ensino ‘penso, logo danço’”.

Segundo a especialista, os pilares do método são, primeiro, a questão do raciocínio: é preciso pensar o movimento. O segundo é não copiar ninguém. Fazer o movimento por si só, imaginando. E, por último, utilizar a fala para ensinar e aprender. “Só utilizo o toque como último recurso”, ressaltou a professora.

O ápice do método de Solange foi quando ela começou a ensinar deficientes visuais: em 2003, começaram as suas aulas gratuitas para esses alunos na escola Passos e Compassos. Atualmente, o curso é de segunda-feira, das 18h30 às 19h30, e uma nova turma será aberta no mesmo horário, mas de quarta-feira, a partir do dia 20 de maio.

Para Solange, a motivação é a alegria e a força de vontade deles. “É a melhor aula da minha semana, e é na segunda-feira, pra já começar a semana bem. É uma lição a cada dia. Se eu estou chateada, chego para dar aulas pra eles, e isso passa.”

“Quero aumentar a autonomia dos alunos”, diz professora

Durante as aulas, a professora brinca, mas dá bronca também, como com qualquer outra turma. “Eles têm que trocar de par, e eu não ajudo. Eles têm a boca e o ouvido para se achar. Eu quero, ao máximo, aumentar a autonomia deles como seres humanos”, completou Solange.

Mas a jornada não é fácil. Os deficientes visuais enfrentam muitos desafios pra chegar à aula. “Só para saírem de casa, pegarem um ônibus ou um metrô pra vir pra cá, eles já têm que matar um leão. O grande problema é chegar aqui, é contar com a ajuda das pessoas. Elas têm pressa, sentam no lugar deles e não ajudam,” lamentou o professor Kubano.

Mesmo assim, os alunos não desistem. A frequência é boa, e eles são muito dedicados. A maior dificuldade, segundo os estudantes, é o equilíbrio e a realização de “giros”. “Dá um pouco de medo: não tem onde se segurar, não tem ponto de referência. É preciso se concentrar mais, ouvir mais. Mas depois de alguns anos, a gente consegue desenvolver tudo isso muito bem”, afirmou a aluna Gisele.

Superando a depressão

Ao perder a visão, muitas pessoas entram em depressões profundas, como Braul Maciel, aluno recente da Passos e Compassos. Braul já nasceu com a vista prejudicada, mas, há alguns anos, o problema se complicou.

“Eu fiquei derrubado quando perdi o resto da visão. Aí, eu me levantei pra vida e procurei associações. Eu sou da sociedade, não sou deficiente”, disse ele.

“É difícil aceitar que está perdendo a visão. Que nem a bengala. No começo eu pegava a bengala, e ela pesava cinco quilos na minha mão. Tinha vergonha. Na minha época, não tinha isso, associações. A gente lutava sozinho. Agora a gente ajuda os outros,” contou José Vicente, que também é aluno deficiente visual da Passos e Compassos e fundou a organização “Amigos pra Valer”, entidade que trabalha cultura e lazer com deficientes visuais.

A dança de salão traz benefícios físicos e emocionais para os deficientes e ajuda a superar problemas. Segundo a professora Solange, o que a dança proporciona aos alunos é um ganho em termos de “referência, espaço e agilidade corporal”. “Mas eu acho que o mais importante é a questão da diversão, e eles conseguem usar melhor o corpo.”

Além disso, explica a professora, é uma dança que trabalha a interação. “Ajuda a lidar com os outros, com os erros dos outros”. É um estilo de dança social que sai das salas de aula e pode ser praticado em festas e bailes.

“Espanto a ‘zica’”, diz aluna

Andréa Lima também é deficiente visual e está no curso de dança de salão da escola Passos e Compassos. Antes disso, ela passou pelas aulas da instituição Fernanda Bianchinni, mas por uma questão de horários, precisou mudar. Para ela, as aulas proporcionam um momento de lazer. “Aqui, eu relaxo, espanto a ‘zica’, encontro meus amigos e faço novas amizades”.

Os alunos da associação Fernanda Bianchini se encontram no metrô Vila Mariana e caminham juntos até a escola. A turma é grande, e o barulho e as risadas são altos quando eles se encontram.

“Eu sou o que mais aprende aqui: superação, alegria de viver, amizade… Eles são muito amigos. Hoje, uma colega não veio, e eles ficaram lá no metro esperando até ela avisar que não vinha. Eles vêm todos juntos. Aliás, o grupo de whatsapp é uma perturbação. Já silenciei eles…”, brincou o professor Kubano.