Por Cainã Ito, Charles Toledo, Gustavo Carratte, Isabela Rios e Priscilla Ortega

Orientação e edição: Prof. Alexandre Possendoro

Mara Luquet concede entrevista a alunos de Jornalismo

Mara Luquet concede entrevista a alunos de Jornalismo

Mara Luquet é uma pessoa cheia de convicções – e de gestos que a auxiliam a se fazer entender. Uma dessas muitas certezas, porém, é especial: a relação com o dinheiro é um dos maiores desafios da humanidade. Algumas pessoas gastam demais, ela diz, e outras gastam de menos. E ambos os estilos estão errados. “As pessoas que deixam de planejar o seu próprio dinheiro costumam dizer que fazem isso para que possam viver melhor, mas ainda não perceberam o perigo disso. É preciso, sim, ter uma boa saúde financeira, com todas as coisas bem planejadas. Só assim você consegue aproveitar a vida de maneira plena”. Em conversa que durou mais de uma hora, realizada na sede da Editora Letras & Lucros, da qual é sócia-proprietária, a jornalista abordou diversos assuntos, como a necessidade do jornalista não restringir o seu trabalho a apenas uma editoria, a importância de existir no meio uma rápida compreensão sobre o mar de oportunidades proporcionado pela internet, a perigosa arrogância dos jornalistas em acharem-se superiores ao seu público e o pecado que cometem as universidades ao não ensinarem direito para os jovens o que é o mundo em que eles vivem. Hoje, como gosta de dizer, trabalha na TV, mídia em que jornalistas são tratados como celebridades – diferentes dos jornais impressos, onde ninguém os conhece. E no rádio, onde os ouvintes consideram o jornalista um parceiro. Comentarista de Economia no Jornal da Globo e na Rádio CBN, Mara também já trabalhou no Valor Econômico, na Folha de São Paulo, na Revista Veja, Revista Exame e Gazeta Mercantil, além de ter sido colunista da TV Cultura. Autora de livros como “O assunto é dinheiro”, em parceria com Carlos Alberto Sardenberg, a jornalista também valoriza o papel da mulher na economia, destacando, ainda, a diferença que há entre o modo como a mulher e o homem tratam o dinheiro, assunto tão bem debatido nos livros, também escritos por ela, “Meninas normais vão ao shopping, meninas iradas vão à Bolsa” e “Meninas normais casam, meninas iradas investem na relação”.

Laboratório de Jornalismo – O que levou você a ser jornalista?

Mara Luquet – É engraçado, mas foi um trabalho de escola. Quando eu estava no ensino médio, uma professora nos passou como trabalho produzir um jornal. Eu iria prestar vestibular para Medicina – tanto é que prestei. Mas a gente gostou tanto daquele jornal que começamos a fazer um para a escola, que se chamava “Solidariedade”. Fazíamos, imprimíamos e entregávamos na escola. Foi o maior sucesso.

LJ – Então sua paixão começou pelo jornal impresso?

ML – Isso. Eu costumo dizer que o jornalista de jornal ninguém conhece. Ninguém lê quem escreveu a matéria. A minha formação é em jornal impresso. O jornalista de rádio, que sou há 12 anos, lá na CBN, é visto como um “parceiro”. As pessoas enxergam você como “brother”, um amigo. É “o cara que está ali, ao lado do ouvinte”. Já o jornalista de TV é celebridade, o telespectador confunde você com uma. É muito engraçado isso. Uma vez eu estava na rua, e uma menina veio pedir para tirar uma foto comigo, porque me viu na TV. Na hora, ela disse: “É a primeira vez que tiro uma foto com artista”. Olhei para ela e falei: “Olha, vou explicar pra você: eu não sou artista; eu sou jornalista”. E ela: “Ah, serve isso mesmo”. Quer dizer, para a grande maioria das pessoas, apareceu na TV é celebridade. Ainda é assim.

LJ – E você escolheu o jornalismo econômico ou foi escolhida por ele?

ML – Ninguém escolhe jornalismo econômico. Foi por falta de opção. Eu estava na editoria de Política, na revista Istoé, em Brasília. Fui transferida para São Paulo e, durante uma viagem, a revista foi vendida. Perdi o emprego, assim como todo mundo da redação. Recebi um convite para entrar na Gazeta Mercantil e assim entrei em economia. Como eu queria ficar em São Paulo, topei. Comecei cobrindo finanças, conversão da dívida externa e tal. Foi muito engraçado, porque eu nunca tinha feito economia na vida. É por isso que digo que jornalista é jornalista, não pode ser apenas de uma área. Eu cobria política, já cobri celebridades… Eu já cobri o diabo. E agora estou na área de economia não porque eu sou jornalista econômica, mas porque eu sou jornalista. E é muito importante que o jornalista de economia não se confunda, achando que faz alguma outra coisa. O risco é telespectadores, ouvintes e leitores passarem a vê-lo como economista, consultor financeiro, e ele acreditar nisso. Se me colocarem para cobrir uma matéria, sei lá, sobre informática, eu posso não ter fontes na área, posso não ter total domínio sobre o assunto, posso não ter prática, mas eu sei como encontrar fontes, como construir a minha matéria, como apurá-la e tudo mais.

LJ – Quais é a principal diferença da produção jornalística nas diferentes mídias?

ML – Acho que é o tempo. Principalmente o tempo. Em TV, a gente descobre quanto vale um segundo. Se você respirar, já perdeu dois segundos. “Oh, meu Deus, dois segundos”, e aí você já fica alucinado, pois perdeu dois segundos. O tempo é uma coisa preciosa. Muitas vezes confunde-se essa necessidade de valorizar o tempo, que é muito presente na TV, com superficialidade, mas o ponto é que você precisa dominar a linguagem. E isso é difícil. Passar informação com profundidade, séria, de forma rápida, essa é a função do jornalista.

LJ – Em qual mídia você prefere trabalhar?

ML – Na internet. Acho espetacular essa nova mídia. Os jornalistas não se deram conta do que é a liberdade da internet. Principalmente no Brasil, os jornais ainda estão perdidos, sem a noção do que está acontecendo. Eles ainda não têm a dimensão do que é essa nova ferramenta. Eu, por exemplo, não leio mais jornal no papel, só leio em tablets. No Brasil, eles são um PDF! Em outros lugares há tanta tecnologia, tantos atrativos, que você pensa “…cara, como é que ele faz isso?”. Em conversas com caras do departamento de TI, costumo brincar que eles são pai de santo ou algo do tipo, porque você fala com ele, dá uma ideia e as coisas acontecem. Alguns jornalistas dizem “ah, a internet acabou com o Jornalismo”, mas não! É o contrário! Ela dá para o jornalista o poder, porque os meios de produção agora estão muitos baratos, estão à mão de qualquer um.

LJ – Na sua visão, o que a internet muda, com relação a outras mídias?

ML – A internet junta tudo. A grande diferença hoje é que você está cara a cara com todo mundo. O seu público entra no Twitter e já te manda uma mensagem. Eu já fui finalista do Prêmio Esso uma vez, e a matéria surgiu de um e-mail de um leitor. Ele falou: “Estive na agência, fui ver meu fundo de investimento, fiz isso, fiz aquilo, fiz aquilo outro”. Fui checar a informação, ver o que era, e deu em uma baita matéria. Um baita furo. E quem me deu foi um leitor! Eu nunca desprezo nenhum e-mail que recebo. Por mais bobagem que possa parecer, eu sempre vou ler. O seu público sempre tem alguma coisa para dizer, e vejo que muitos jornalistas deixam essas coisas passarem. Estão preocupados em falar com a presidente, que é algo que todos fazem. Existe uma arrogância muito grande dos jornalistas de não querer ouvir o público. Na hora em que nos libertamos dessa arrogância, de se achar “o intelectual”, que ouvir o seu público é algo menor, você ganha uma fonte preciosíssima.

LJ – O grande desafio do jornalista econômico é conseguir ser entendido pelo público em geral?

ML – O grande desafio do jornalista, não apenas do jornalista econômico, é falar com o público em geral. Qualquer área. Se me perguntarem se, por ser economia, não é um pouco mais difícil, a resposta é não. Leia uma matéria de tecnologia mal escrita, leia uma matéria sobre pesquisas espaciais… É a mesma coisa. Economia é igual a todas as outras áreas, e a função do jornalista é simplificar essa linguagem, para atingir a maior quantidade de pessoas possível.

LJ – Os jornalistas, hoje, conseguem isso?

ML – Eu trabalho com muitos estagiários na minha editora, e uma coisa que percebo é que as universidades têm colocado no mercado alguns profissionais que, com todo o respeito, não são jornalistas. O cara não sabe sair para as ruas, não sabe apurar. A vida real é muito diferente daquilo que as universidades têm ensinado aos alunos de Jornalismo. Há estudantes que não sabem ler, que não gostam de ler… Sim, eu disse que não gostam de ler! Para se escrever bem, é obrigatório ler. Ler e ler muito. Ler Machado de Assis, ler Nelson Rodrigues, ler Otto Lara Resende, ler os clássicos internacionais e nacionais, ler os grandes colunistas brasileiros… Tem gente que já passou por aqui que não sabe quem é Rubem Braga! Jovens bem nascidos, bem educados, mas que querem tudo muito rápido, e que não leem. E se você não faz isso, você não aprende a escrever, não aprende a interpretar, não aprender a analisar, não aprende a pensar, não aprende a fazer nada. E o jornalista precisa pensar. Precisa conhecer a história recente, entrevistar uma fonte, analisar o que ela disse, correr atrás de outra que dê uma outra visão e por aí vai. Se não for assim, o jornalista vira um taquígrafo.

LJ – Mudando de assunto, você diz que o relacionamento com o dinheiro é um dos grandes desafios da humanidade. Fale sobre isso.

ML – É um grande desafio porque há quem guarde demais e há quem gaste demais. Os dois casos estão errados. Tem gente que não consegue gastar dinheiro, sofre quando tem de fazer isso. Na relação com o dinheiro, existem outros componentes mais importantes do que simplesmente seguir os números e o retorno financeiro, como, por exemplo, o seu bem-estar. Qual é a diferença entre um cara que não consegue dormir porque está cheio de dívida e de um cara que não consegue dormir porque está cheio de dinheiro investido na bolsa oscilante? Os dois estão sofrendo. É importante notar que a educação financeira virou moda no Brasil, mas é preocupante quando se percebe que essa tal educação financeira virou sinônimo de guardar dinheiro. Já vi economistas dizendo que o ideal é guardar 30% do salário por mês… Olhe a renda média do brasileiro! Quem é que vai ter condições de guardar 30% do salário todo mês? E para quê? Para ter um enterro de primeira? Me poupe!

LJ – E quais são as melhores medidas nesse sentido, então?

ML – No âmbito pessoal, você tem de saber fazer cálculo. Matemática é importante. É importante também entender quais são as suas prioridades, porque, ao longo de nossa vida, escolhas são necessárias. Não existe “você pode tudo”. Ninguém pode tudo. Você precisa fazer escolhas e para isso você precisa de informação. E não é só pensar em economia, perdendo tempo de vida. É justamente o contrário. Você precisa ter saúde financeira, as coisas bem calculadas, nos seus devidos lugares, se não, aí sim, você ficará pensando o tempo todo em dinheiro, em cobrir aqui, cobrir ali. A sua vida financeira tem de dar a liberdade necessária para que você consiga fazer o que gosta.

LJ – Quais conselhos são importantes para uma pessoa que está endividada?

ML – A primeira coisa a se fazer é livrar-se da culpa. Eu vejo com frequência que pessoas endividadas começam a se acharem bandidos, marginais, se envergonham daquilo. É algo ruim, mas não é crime. No momento em que ele se livra dessa culpa, as coisas começam a se resolver. A segunda coisa é buscar informação – e eu digo informação mesmo, não são dicas. Dicas eu dou para o meu cunhado, não para o meu telespectador, ouvinte ou leitor. Para eles, eu dou informação, que é o que eles precisam para reestruturar a sua situação. Assim, eles poderão chegar aos credores, ter uma conversa, saber realmente o que precisa ser pago, identificar cobranças indevidas e brigar por isso. Ele tem de se informar para saber renegociar.

LJ – Como você avalia o perfil do consumidor brasileiro?

ML – Tem de tudo. Desde o mais ricos ricas até os mais pobres. E todo mundo fala mal do consumidor brasileiro, né? Que o brasileiro em geral é careta, endividado, consumista etc. Eu não acho nada disso. O que tenho visto, no meu contato diário, é que as pessoas querem fazer a coisa certa. Elas querem pagar as contas em dia, querem fazer investimentos pensando no futuro, se preocupam com a aposentadoria… A questão é que muitas vezes falta informação.

LJ – Fale sobre a sua ligação com o público feminino.

ML – A minha relação com esse mundo econômico das mulheres nasceu quando eu recebi um e-mail de uma ouvinte. Achei muito interessante ela dizer que queria comprar ações e fazer investimento para o filho dela. Quer dizer, a oferta estava no mercado, e ela estava falando sobre isso. Ela disse: “Estou analisando as coisas, pesquisando ações sobre esse fundo. Quero comprar cotas dele, mas estou com um problema: esse fundo investe numa empresa de cigarros, e eu não quero que o meu filho tenha ações de uma empresa de cigarros”. Eu achei aquilo tão legal! Era a essência do investimento, principalmente do investimento em ações que as pessoas acreditam. Aquela pessoa não estava sendo apenas uma especuladora, ela estava enxergando o investimento de outra forma. Dificilmente um homem pensaria daquela maneira. Ele presta atenção em quanto se ganha. Já a mulher tem essa sensibilidade. Várias pesquisas já estão sendo feitas pelo mundo sobre o papel da mulher no mercado de investimentos. E de fato as mulheres têm esse toque diferente. Todos os livros que escrevi sobre esse assunto foram por conta desses estudos sobre as mulheres.

LJ – Qual vai ser o futuro do jornalismo econômico?

ML – O futuro ao certo nós não sabemos, mas sabemos o que ele está sendo. Ele já está acontecendo. Algumas coisas eu tenho certeza: informação e conteúdo viraram uma jóia rara. E isso tudo está em nossas mãos. É a libertação do jornalista. Não precisamos mais dos meios de produção. Nós os temos ao nosso alcance.