Por Ana Carolina de Oliveira e Bianca Salgueiro, da Agência de Reportagens

Orientação e edição: Prof. Alexandre Possendoro

 

Paulistanos que gostam de ler estão conseguindo acessar livros em projetos que estão “tirando” as obras dos ambientes tradicionais, como as bibliotecas de escolas e centros culturais, e disponibilizando os livros em ambientes pouco comuns para esse tipo de obra.

 

É o caso do projeto “Embarque na leitura”, criado pelo Instituto Brasil Leitor (IBL), de São Paulo, que disponibiliza bibliotecas em lugares “no no meio do caminho” da população.

Estudante pega livro do projeto BookCrossing

Estudante pega livro do projeto BookCrossing

 

Por exemplo, as bibliotecas que ficam em três estações de metrô paulistanas – Tatuapé, Santa Cecília e Paraíso – e também na estação Brás, da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), de São Paulo.

 

“É lendo que a gente aprende a escrever”, disse a aposentada Marlene Simão Pires de Campos, de 69 anos, que já pegou livros de gêneros diferentes no Embarque na Leitura da estação Tatuapé.

 

Ela conta que adora ler, principalmente quando está em transportes públicos, e que tem livros espalhados pelos cômodos da casa.

 

“Minha família toda gosta de ler. E isso passa pelas gerações. E pelo projeto, podemos trocar livros freqüentemente”, ressaltou a aposentada, que só reclama do mau uso que as pessoas fazem dos livros, o que, muitas vezes, acaba destruindo-os. “Não gosto quando as pessoas dobram os livros. Por isso, estou sempre encapando os que eu pego”, complementa.

 

Stand do projeto "Embarque na Leitura"

Stand do projeto “Embarque na Leitura”

William Nacked, diretor-geral da IBL, explica que a idéia das bibliotecas em estações surgiu da convicção de que, para conquistar principalmente o “não-leitor”, seria preciso colocar os livros no caminho das pessoas.

 

“Elas deveriam ‘tropeçar’ nos livros. Implantamos as bibliotecas nas estações de trem, metrô e terminais de ônibus, para dar acesso à leitura gratuita aos milhões de usuários que circulam diariamente nesses espaços”, disse Nacked.

 

Para ele, o fácil acesso à leitura de qualidade e gratuita é a principal ferramenta para estimular o hábito entre os brasileiros.

 

A estudante de Letras Raquel de Abreu Padulla, de 18 anos, conta que o projeto a ajudou na procura de livros para a faculdade.

 

“Fiquei sabendo por uma amiga. Ela já participava do projeto e me disse que havia livros muito bons, livros que não encontrei em nenhum outro lugar. Normalmente, procuro livros históricos, que preciso para fazer trabalhos sobre latim, sobre o povo romano… E todos que eu precisei encontrei no projeto”, disse Raquel.

 

Para a estudante, o colocar livros fora dos ambientes tradicionais incentiva as pessoas a lerem mais. “Porque você não precisa comprar um livro cada vez que precisa. Isso economiza e dá acesso à cultura. E está no metrô, é de fácil empréstimo e devolução”, resumiu Raquel.

 

Livro ‘perdido’

 

Outro projeto interessante é “Bookcrossing”, que consiste na ação diferente e curiosa de deixar um livro em um lugar público, para que outra pessoa o encontre, leia e depois faça o mesmo. A idéia é não deixar os livros parados em estantes, mas fazer com que as pessoas os encontrem em lugares inusitados, como cafeterias, transportes públicos e shoppings.

 

“O Bookcrossing surgiu em 2001 nos EUA e ficou conhecido graças à internet. Os livros foram viajando de um país ao outro, fazendo com que as pessoas tivessem contato e fossem aderindo ao projeto”, disse Helena Castello Branco, que é coordenadora do Projeto BookCrossing no Brasil há cinco anos.

 

“No Brasil, o projeto é muito bem aceito, está em constante crescimento e é visto como uma forma de incentivar e democratizar a leitura”, destacou Helena.

 

A estudante de Jornalismo Nathalia Bianco Louro, de 20 anos, conta que adorou a idéia de achar um livro “perdido” em algum lugar.

 

“Primeiro pelo prazer de ler um livro que você não teve de gastar nada e depois pela possibilidade de passar esse livro pra frente, para que alguém possa se sentir tão feliz como eu me senti”, resumiu a estudante.

 

Nathalia encontrou, por exemplo, o livro The Fountainhead, mais conhecido no Brasil pelo título “Vontade Indômita”, da escritora russa Ayn Rand, no campus Centro da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, onde fica um dos “pontos fixos” (uma estante, com a marca do projeto) do Bookcrossing.

 

A estudante diz que conheceu o projeto pela internet. “Eu sou bem ‘nerd’ na hora de me decidir se eu quero comprar um livro. Então eu procuro em tudo quanto é site… E numa dessas buscas eu acabei no bookcrossing.”

 

Para ela, uma característica interessante é que no Bookcrossing “você não escolhe o livro, ele é que te escolhe.”

 

Livros na bicicleta

 

Outro exemplo de projeto interessante é a “Bicicloteca”, criada pelo ex-morador de rua Robson Mendonça, de 60 anos, em parceria com a entidade Green Mobility e com a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, ambas em São Paulo.

 

Trata-se de um triciclo, que suporta até 150 quilos de livros, distribuídos a moradores de rua e comunidades carentes de acesso à leitura.

 

“Emprestamos, em dois meses de projeto, 4.200 livros, com devolução de 100% deles à bicicloteca”, calcula Mendonça.

 

Para ele, a ação pode contribuir para mudar a situação dos moradores de rua, principalmente por que eles não têm acesso às bibliotecas públicas, pois a maioria não possui documentos de identidade e nem comprovante de endereço.

 

Mendonça afirma que a maioria dos moradores de rua sabe ler. Para os outros, o projeto já prevê realizar cursos de alfabetização.