Por Bianca Amorim, Janahina Sobral, Laura Dourado, Patricia Allerberger e Renata Simond
Orientação: Prof. Alexandre Possendoro

Formado pela Universidade Metodista de São Paulo, Rafael Colombo largou a faculdade de direito para seguir seu sonho no jornalismo. Por gostar de futebol desde criança, resolveu seguir o jornalismo esportivo. Na época em que trabalhava como Agente de Passageiros na VARIG, a oportunidade de começar a seguir a área jornalística surgiu com um telefonema de um repórter da Rádio Bandeirantes. De estagiário a chefe de reportagem, Colombo trabalhou na área de esportes, mas acabou se frustrando e se encontrou na área política, como repórter. Atualmente, ele apresenta, desde 2010, ao lado de Salomão Ésper e José Paulo de Andrade, o Jornal Gente, um jornal estritamente opinativo, e é âncora do Jornal da Hora, que tem por objetivo informar o que acontece de mais importante no horário do almoço. Em entrevista a cinco alunas de Jornalismo, Rafael contou um pouco sobre sua vida, sua carreira e abordou assuntos sobre o cenário atual da política brasileira.

O jornalista Rafael Colombo, na rádio Bandeirantes, de São Paulo

O jornalista Rafael Colombo, na rádio Bandeirantes, de São Paulo

Laboratório do Curso de Jornalismo – Como é fazer jornalismo no rádio, um veículo tão imediato?
Rafael Colombo – Fazer jornalismo no rádio é como em qualquer outro veículo. Mas tem algumas especificidades. A gente se interessa por coisas que outros veículos não se interessam. Por exemplo, acidente em estrada, para um jornal impresso de amanhã, não vai ter relevância nenhuma, mas pra gente, agora, é fundamental. Em política não tem quase diferença nenhuma. A única diferença é que o entrevistado, exclusivamente em política, enxerga você de forma diferente de um repórter de jornal e revista. Embora o rádio atinja um maior número de pessoas, quando o cara quer implantar uma notinha pra uma campanha eleitoral, quer desestabilizar o adversário ele procura o jornal e não o rádio. No rádio, a informação se “dilui”. Você não vai ficar repetindo a informação a cada hora. No jornal impresso, está ali, ele sabe quem vai ler, quando vai ler. Nesse aspecto, a mídia impressa leva vantagem quando o assunto é política.

LCJ – O rádio ainda tem espaço para o jornalismo investigativo?
RC – Aqui (na Rádio Bandeirantes) tem, tem pouco, mas tem. Tem um repórter aqui, que é o Agostinho Teixeira, que é especialista nesse tipo de matéria. Ele faz com muita frequência. E eu acho, aliás, que é o “último” cara que faz isso em rádio. Esse é um dilema que a nossa profissão vai enfrentar. Eu acho que tem espaço, acho que as pessoas gostam de ouvir, e a gente tem que dedicar tempo e esforço nisso, mas a realidade é outra. Em qualquer redação de jornal, televisão, internet… são redações cada vez menores, com menos gente fazendo mais coisas, com gente cada vez mais nova, o que é incompatível com o ideal do jornalismo investigativo.

LCJ – Você sente que as pessoas se intimidam mais com uma entrevista para o rádio do que para um veículo impresso?
RC – Você colocar a voz ou imagem da pessoa causa um impacto maior. Por isso eles falam de um modo diferente quando é para o rádio ou TV. Como o entrevistado sabe que você vai publicar a voz dele, ele se arma. Sem o microfone, é mais fácil do entrevistado soltar algum “bastidor” ou alguma declaração que ele não pretendia dar. Toda a parafernália de gravação inibe um pouco.

LCJ – O que vocês fazem com a informação que chega em cima da hora e precisa ser dada imediatamente?
RC – Quando você está fazendo rádio não pode esquecer que toda informação deve ser checada. O que acontece frequentemente é da informação cair no seu colo, e você está no ar. Nada te impede de falar, a não ser o seu bom senso. Um dia, a gente estava no ar de manhã, e começou a pingar algumas informações de que o papa tinha renunciado. A gente estranhou, porque isso não é comum, mas dá aquela vontade de você dar a informação, ser o primeiro a noticiar, mas isso era uma história inédita até o momento. Então, a gente esperou, aguardou a checagem, porque isso é o básico.

LCJ – Como vocês filtram denúncias?
RC – Primeiro você precisa conhecer minimamente quem está oferecendo a denúncia. E saber o que essa pessoa quer com essa denúncia. Ela nunca vai ser uma pessoa que não quer nada com isso. Ela sempre vai ter um interesse, sempre vai ser beneficiada. A gente não está aqui pra servir um pequeno grupo ou o interesse de um e de outro, é a massa, é a sociedade como um todo. Se essa denúncia que o cara me ofereceu vai servir à sociedade, e ele, por tabela, vai ser beneficiado, aí vamos em frente.

LCJ – No seu programa há algum controle de opinião para não criar polêmica?
RC – A ideia do programa é gerar atrito, no bom sentido. O limite é o bom senso. Quando gera uma polêmica, a gente acaba mudando de assunto não porque não pode, mas porque ninguém faz um programa que dure muito tempo com um assunto só. O caso do Feliciano (deputado federal) é um assunto clássico. Você toca no nome dele e começa a receber e-mails de gente que acha que ele está certo e de gente que acha que ele está errado. Às vezes a gente trata esse assunto com certa delicadeza não por ordens do superior, mas porque o assunto é delicado mesmo. Pra você esbarrar em um preconceito qualquer de ambos os lados é muito fácil.

LCJ – Sobre “câmera escondida”, até que ponto você acha que é válido adotar esse procedimento?
RC – Eu acho que é digno fazer se você vai desvendar algo que não poderia ser desvendado sem a câmera escondida e sem o recurso da gravação. Eu sempre tive um pé atrás com esse tipo de coisa, mas também admito que às vezes você não consegue desvendar, por exemplo, um esquema de corrupção se você não recorre a esse artifício. Eu acho que tem limites. Você não pode se apresentar como uma pessoa que não é, se passar por alguma coisa… Isso eu não acho legal, mas omitir uma gravação de alguém que tá envolvido em algum esquema de corrupção, por exemplo, eu acho que em alguns casos é válido. Com limites éticos que precisam ser discutidos na redação entre os próprios jornalistas. Acho que sempre tem que estar todo mundo ciente. Nunca é uma decisão que você pode tomar individualmente. É sempre bom um número maior de pessoas pensando sobre o assunto. Mas acho que a gente não pode usar isso como regra. Tem que ser como uma exceção, usada sempre como uma raríssima exceção.

LCJ – Há alguma dificuldade maior em cobrir política no rádio, pelo imediatismo do veículo?
RC – Não. Eu acho até que a gente fala bastante. A gente tem duas horas de manhã. Eu chuto que a gente fala de política uns 40 minutos. Para um programa de duas horas é muita coisa. A dificuldade que se tem é que as pessoas tem uma resistência muito grande, pela falta de credibilidade, por achar que todo mundo é ladrão. Então você começa a falar, e, às vezes, bate até certo desânimo.

LCJ – Por que as matérias especiais não abordam politica?
RC – Eu acho que tem esses dois aspectos. O primeiro é das pessoas não se interessarem muito, e a gente não falar. Ou a gente não falar porque as pessoas não se interessam muito. E o segundo é que a reportagem política é difícil de ser tratada. Todo jornalista tem muito zelo pra não parecer que está elogiando gratuitamente um político. As pessoas não crêem no que dizem os políticos. Elas ouvem alguma coisa que tem político no meio e já falam: “ih, lá vem esse cara de novo com esse papo furado… ladrão, só quer me enganar, só quer o meu voto.” Isso tirou a credibilidade deles. Então, eu acho que jogou o nível do assunto pra baixo. Porque aí, a gente comete um erro também que até eu tento evitar que é tratar todo mundo como ladrão. Não é todo mundo que é ladrão. Uma sociedade sem política é uma sociedade pior, tudo é politica.

LCJ – Você acha que não dizer que todo político é corrupto é realmente uma das dificuldades de se cobrir política?
RC – Eu acho que é a maior dificuldade, pois as pessoas reagem muito mal se você não faz um elogio, mas se você declara ou se você passa a impressão de que você acreditou em alguma coisa que um político falou ou diz que você não acha suficiente os elementos que foram apresentados para denunciar alguém, as pessoas te interpretam como um defensor de bandido.

LCJ – A juventude de hoje se tornou mais ativa em relação aos assuntos políticos por causa das mídias sociais?
RC – Acho que sim. Um pouco. Mas também tem um pouco de lenda nisso. Isso não tem efeito prático ainda. Talvez pelas pessoas se informarem mais, isso seja um aspecto positivo que a gente pode destacar, mas também um milhão e meio de pessoas assinaram uma petição eletrônica para pedir a saída do Renan Calheiros e não adiantou absolutamente nada. Então no fato de disseminar mais as informações talvez seja importante. Agora, o segundo passo, as pessoas passarem a se importar mais com isso, começarem a participar mais, em princípio, acho que não é verdadeiro.

LCJ – O que você acha da posição do governo de investir em estádios de futebol?
RC – Eu acho que a Copa é uma boa pro Brasil, sinceramente. E acho que a gente não pode só olhar pro ‘ah, tá gastando em estádio’. Esse é o tipo de “política de Facebook”. Como a gente estava falando de redes sociais: “veja essa criança passando fome e olha esse estádio”. Eu discordo frontalmente desse tipo de comparação. Uma coisa não impede a outra, e o estádio pode, eventualmente, até curar a fome daquela criança porque a Copa do Mundo vai adicionar pontos ao PIB brasileiro, vai gerar emprego. Então, o evento em si eu acho positivo. Ele tem distorções seríssimas, acho que o governo põe dinheiro excessivo no evento, mesmo porque é um evento privado. A FIFA não quer ter gasto nenhum, só lucro com a Copa do Mundo, mas acho que o resultado final é positivo, ter um evento esportivo como esse para um país, seja ele mais pobre ou mais rico. A gente só tem que ter a consciência de que tem que fazer uma Copa do Mundo nossa. Não vai ser a Copa da Alemanha nem a Copa da França, assim como a África do Sul fez a dela. Eu acho que é parte da função de quem governa estimular. E se o estádio vai levar pra lá uma faculdade técnica, vai levar pra lá a reforma da linha do metrô, vai levar pra lá um fórum, vai levar pra lá obra viária, pra um lugar que não tem nada, eu acho, em princípio, correto.

LCJ – Você acha que esse investimento pode gerar turismo “fora de época” da Copa?
RC – Os outros países que receberam a Copa têm um dado: que o maior volume de visitação não se dá durante o evento, mas depois. Então, o maior número de pessoas não vai a Manaus durante a Copa, até porque vão ser poucos jogos da Copa lá. Eles vão depois pela exposição da cidade. Manaus tem atrativos naturais pra chamar muito mais gente do que chama. Eu acho que aí eu tento me colocar no papel de quem é governo. Acho que se você tem estudos, números que comprovam que isso pode acontecer é uma boa aposta.

LCJ– O que você acha do cenário atual da politica no Brasil?
RC – Acho que a gente está caminhando para evoluir, com as pessoas sabendo mais das coisas, tendo mais informação, acho que esse fundo do poço que a gente bateu, de credibilidade, das pessoas não acreditarem mais em político, não quererem mais saber dessa história, não quererem votar, isso pode servir pra que eles próprios criem uma consciência de que precisa parar de brincar um pouco com as pessoas, levar a coisa mais a sério, e começar a recuperar um pouco da autoestima, da credibilidade que eles deveriam ter.

LCJ – O que você recomenda para jornalistas quem querem começar a cobrir política?
RC – Eu acho que primeiro tem que gostar porque é um assunto árido. Então, em princípio, se a pessoa tem mínimo de vínculo afetivo com essas coisas ela tem que procurar se aprofundar, estudar e entender o que ocorreu no passado pra compreender o que está acontecendo agora. Com informação e conhecimento você passa a entender quais são os jogos que estão em andamento agora na política, e no final das contas tudo faz sentido Outra coisa é ter presente que a função de quem trabalha com política é tentar, em primeiro lugar, não se deixar levar pelo glamour da coisa. Você tem que tentar traduzir esse mundo diferente deles para a vida prática das pessoas. O que eles estão discutindo há horas lá em Brasília? Quando é que isso vai virar um tijolinho na minha casa? Quando é que isso vai virar algo concreto na minha vida? Acho que o grande negócio é esse. Como isso vai ter impacto na minha vida. Acho que essa é a equação principal.