A Estação da Luz é o segundo ponto turístico mais visitado da cidade de São Paulo, ficando atrás apenas do Museu de Arte de São Paulo (MASP). Além disso, também é a segunda estação com maior circulação de pessoas. Por ela, passam, em média, 250 mil pessoas por dia. Foi nesse cenário que eu e Rafael Abreu, um colega de classe, encontramos a fotógrafa mineira Cicéia Almeida, a jornalista carioca Elenir Coutinho, o comerciante cearense Domingos Ferreira e os paulistanos Jacob Benchimol, Douglas Cosme dos Santos e Patrícia Gomes de Oliveira.

Eu e Rafael nos encontramos na estação no horário em que havíamos combinado. E só no horário. Se tivéssemos combinado um lugar, não tínhamos nos encontrado do jeito em que a cena aconteceu: eu saía da CPTM como quem vai para o Metrô, de onde ele viria; e ele vinha do Metrô com aquela expressão típica de “criança que visita um lugar pela primeira vez e tem desejo de desvendar o que até então era desconhecido”.

Saímos da parte subterrânea da estação e subimos para o saguão, habitado dia e noite pela única coisa que tem autorização para isso, além dos lustres, tijolos e ferragens que estão lá desde que a estação foi construída, em 1901: um piano, que ocupa o local para ser usado por qualquer um que saiba tocar ou que queira se sentar a um piano apenas para tirar uma foto.

O saguão, tombado patrimônio histórico da humanidade, carrega um ambiente completamente oposto ao do piso inferior, onde as pessoas vivem correndo, seja para pegar o metrô ou os trens, sem nem olhar para o lado. Ao centro está o piano, que ajuda a compor o ambiente nostálgico que paira sobre aquele lugar, antigamente dominado por pombos.

Mas foi na plataforma, acima das quatro linhas de trem, que encontramos nossa primeira fonte: a fotógrafa mineira Cicéia Almeida, que registrava o movimento nas plataformas 2 e 3 com sua câmera “pequenininha, já que em São Paulo ou em qualquer outra cidade grande não dá pra arriscar”, segundo ela própria.

Do calado comerciante cearense Domingos Ferreira, só conseguimos descobrir que ele raramente passa pela estação. E quando vai, fica só observando a arquitetura do lugar e o movimento de milhares de pessoas que passam por lá.

Enquanto entrevistávamos Ferreira, notamos que aumentava a quantidade de pessoas ao redor do piano, que era dedilhado por um senhor de aparência bem simples.

Esse senhor, que depois descobrimos ser o paulistano Jacob Benchimol, mora na avenida 9 de Julho, uma das principais ligações entre o Centro e a Zona Sul da capital. “Eu não uso nem os trens, nem o metrô daqui porque moro e trabalho perto. Só venho na Estação da Luz por causa do piano” afirmou.

Para ele, as pessoas precisam primeiro conhecer São Paulo para depois conhecer as belezas de outros lugares. “Tem muita gente que nasceu aqui em São Paulo e não conhece (no caso, a estação da Luz). Eu acho que tem que incrementar; fazer propaganda, divulgar as coisas de São Paulo”.

Artistas desconhecidos

História é o que não falta na estação da Luz. E não falo da história da estação, do passado desse local que, na época de fundação, era freqüentado somente pela elite paulistana. Falo de “histórias na Estação da Luz”, das coisas que acontecem por lá todos os dias. “Vira e mexe a gente vem aqui aos domingos e encontra ilustres artistas desconhecidos. Um dia, eu vi um rapaz cego que ‘parou’ a estação da Luz enquanto tocava piano. Fiquei quase duas horas aqui, só ouvindo”, contou Benchimol.

A Luz tem história para todos os gostos: obviamente não há como entrar naquele saguão sem imaginar os empresários e políticos do início do século passado fazendo negócios; não há como passar pelas passarelas acima das plataformas sem imaginar as várias levas de imigrantes que aqui chegaram também nos idos de 1900.

Hoje, mais de cem anos depois, as histórias são bem diferentes. Não carregam esse caráter “nostálgico” que o ambiente da estação nos faz imaginar. No lugar da nostalgia, entra em cena o famoso “jeitinho brasileiro”, que faz de tudo para sobreviver quando as coisas já não dão certo.

É normal ver ambulantes nos trens vendendo “caneta que escreve em CD e DVD”, amendoim, chocolate, escova dental, barbeadores à pilha, “Brahma, coca e água”… Mas a criatividade dos ambulantes vai cada vez mais longe. “Numa semana de Natal, um senhor começou a vender peru no trem”. disse Paulo Medina, supervisor da Agência Brasileira de Controle de Risco (ABCR).

Cracolândia

Num passado não muito distante, os arredores da Estação da Luz já fizeram parte da “Cracolândia”, ponto de consumo de crack e de prostituição, que se estendia desde a Avenida Duque de Caxias até as ruas Cásper Líbero e Mauá, próximas à estação.

Nessa região era (e ainda é) muito grande a presença de travestis, que assim como algumas moças faziam desse lugar seu ponto. A Cracolândia provocou a degradação de toda essa região, o que fez as histórias sobre a estação não serem só boas ou inusitadas, como contou o desempregado Douglas Cosme dos Santos, que esperava o horário de uma entrevista que faria naquele dia.

Aliás, foi difícil conseguir entrevistas de mulheres. Depois de Cicéia, a fotógrafa lá do início deste texto, tentamos por várias vezes conseguir alguma outra mulher para nos dar uma entrevista, todas sem sucesso. O máximo que conseguimos arrancar de uma senhora foi o seu primeiro nome: “Lurdes”. O sobrenome já foi pedir demais.

Mas quando já estávamos quase nos conformando em só ter uma mulher como fonte, chegamos ao fim do nosso dia na Estação da Luz com mais duas entrevistas: duas mulheres.

Achamos Patrícia Gomes de Oliveira, estudante de arquitetura e urbanismo, por indicação de um funcionário da CPTM, que nos disse que “aquela ali não trabalha aqui não”. E fomos entrevistá-la.

Coincidência ou não, ela era uma conhecida minha: estudou no mesmo colégio que eu. Se para Cicéia, Domingos e Jacob, o piano na estação é uma iniciativa louvável, para Patrícia, não.

Para ela, que estava acuada por ter descoberto naquele dia que a Estação da Luz era ponto de prostitutas e “cheia de velhinhos tarados”, o piano cria mais um foco para prostituição.

Já Douglas Cosme dos Santos, que estava com Patrícia, o piano é uma espécie de “marketing cultural”. Ele alerta: “colocam um piano lá pro povo tocar e falam que estão dando cultura para as pessoas. Mas se você olhar… por exemplo, biblioteca aqui não tem. Nem educação. É só ver a briga que é pra entrar no trem em horário de pico…”

Já se passavam das 14h30 quando vimos uma senhora com duas crianças, aparentemente “turistas”, que visitavam a Estação da Luz pela primeira vez. Era a jornalista Elenir Coutinho de Souza, uma carioca que mora em São Paulo há 28 anos, que levava seus filhos para visitar a Estação “enquanto eles ainda têm interesse em conhecer um lugar como esse”.

Sem querer desmerecer ou esnobar nossas outras fontes, Elenir dava uma matéria só para ela, por que “jornalista é uma praga né? Fala mais do que a boca”.

Curiosamente, uma das suas primeiras matérias foi justamente sobre a estação da Luz. Ela disse que era uma apaixonada por aquele lugar. Na época em que ainda era uma estudante de jornalismo, trabalhava no Bom Retiro e acabava sempre passando por lá. “Eu tinha o prazer de entrar só pra olhar. Achava lindo… isso aqui tem uma acústica. E quando você não é do lugar, você fica apaixonado, explora muito mais.”

Comparando a Luz de sua reportagem com a Luz da nossa reportagem, a jornalista disse que a estação melhorou bastante, principalmente em volta. A “Cracolândia” já não chega mais até ali. Os pombos que antes habitavam o local também não batem mais suas asas rumo à Luz. “Isso aqui vivia cheirando a ‘xixi-mexerica-abacaxi’. O que eu senti é que aquele odor que era típico da estação sumiu. E o que foi legal é a vinda do Museu da Língua Portuguesa.”

Para ela, o Museu acaba atraindo estudantes para aquela região, e uma construção imponente como a Estação da Luz chama atenção. Realmente constatamos isso: quatro ônibus de excursões escolares estavam parados em frente à Pinacoteca do Estado. E notamos que a estação causou espanto em alguns alunos que nem imaginavam a existência de um ponto turístico numa região “tão feia” de São Paulo.

‘Desconhecidos’ de São Paulo

É isso que Elenir alertou: “quem é de São Paulo muitas vezes nem conhece a cidade onde nasceu. Acho que é uma questão cultural. O brasileiro não dá muito valor a sua histórica.”

Quem conhece São Paulo sabe que a Estação da Luz fica numa região que antigamente era (ou talvez até hoje seja) ponto de efervescência cultural, freqüentado por artistas, poetas, escritores, músicos e políticos.

Não é à-toa que a Pinacoteca do Estado e a Sala São Paulo, onde concertos voltaram a ser realizados, ficam bem próximos à estação; dela para a Pinacoteca, por exemplo, é só atravessar a rua.

Para Elenir, o tal “projeto do piano” não deveria ficar só no piano, mas “cada dia uma coisa: um piano, um violino, um órgão… vai chamar a atenção. Distrai, faz bem”, garante a jornalista.

Atendendo a um pedido num tom “meio de ordem” de um funcionário da estação, sob o pretexto “já são 3 horas, começo de horário de pico, e os guardas já estão se preparando para um dos momentos mais complicados do dia”, fui para a plataforma 3, linha 7 da CPTM; e Rafael, para o Metrô…

Fim da linha.

Reportagem: Renan Palhares de França Crema e Rafael Abreu. Texto: Renan Palhares de França Crema.