O ano de 2002 estava no começo, e Marcos Vasconcelos, que tinha 26 anos, guiava a moto de volta para casa, depois de dar carona para a namorada, no início da noite. Ao parar no semáforo, na Avenida Kennedy, em São Bernardo do Campo (SP), ele foi surpreendido por dois homens em uma moto que anunciaram o assalto. Assustado, Marquinhos acelerou, e o homem na garupa da moto atirou quatro vezes.

“Deu um gelo no corpo. Na hora não senti mais nada da nuca para baixo. E também não sentia dores”, relembra.

Durante o resgate, Marquinhos, como é mais conhecido, permaneceu acordado, foi levado ao hospital e recebeu uma injeção que o deixou inconsciente por quatro dias. “Quando acordei foi um susto, porque achei que tinham cortado minhas pernas. Não sentia nada da cintura para baixo.”

Marquinhos ficou paraplégico e não achava possível aceitar a sua deficiência, mas os seis meses de fisioterapia introduziram atividades físicas em sua vida que mudaram seu modo de pensar. “O indivíduo começa a se exercitar e vê que existem outras pessoas como ele naquela situação ou pior”, afirma o fisioterapeuta José Carlos Muelas.

A recuperação de Marquinhos começou a progredir em seu encontro com o esporte, e ele começou a dar a volta por cima.

Esporte que reabilita

Para Steven Dubner, fundador da Associação Desportiva para Deficientes, o esporte é uma das principais ferramentas para acelerar a reabilitação e reintegração do deficiente na sociedade.

“Quando a pessoa se torna deficiente, ela ‘perde o chão’, fica em casa escondida, sem vontade de viver. E o esporte devolve a motivação”, ressalva.

A prática esportiva começou a ser levada a sério por Marquinhos, que decidiu seguir em frente nas atividades. “Escolhi o basquete como uma opção e depois procurei o Clube dos Paraplégicos, onde joguei por quatro anos”.

Após descobrir o basquete, ele resolveu se dedicar de vez ao esporte: começou a praticar esgrima, mas logo depois se identificou com o tênis, que se tornou uma paixão.

Marquinhos, que só prestava atenção no futebol, hoje é o sexto melhor tenista do ranking nacional de tênis paraolímpico, joga torneios por todo o Brasil e é o atual campeão do BH Tennis Open.

Agora seu grande objetivo é buscar a classificação para as Paraolimpíadas de Londres, em 2012, mas seu maior sonho é competir em alto nível no Rio de Janeiro em 2016. E sabe qual é seu lema no dia a dia para alcançar o que deseja? Viver da melhor forma possível! “A vida e o esporte estão aí para você curtir e não parar nunca.”

Jogo de superação

Outro que encontrou no esporte o segredo da superação foi o técnico de Marquinhos, Maurício Pommê, de 40 anos.

No final dos anos 90, por causa de um conserto, Pommê subiu no telhado da academia da qual é dono e caiu de uma altura aproximada de 13 metros. O impacto resultou em uma lesão medular que o deixou paraplégico. Mas ele não se abalou e aproveitou toda a disposição e vitalidade que sempre teve como jogador de tênis para seguir em frente. A limitação dos movimentos nunca foi um adversário, e Pommê voltou a jogar, dessa vez, em cadeira de rodas.

A adaptação foi rápida. E o tenista tornou-se campeão no Torneio da Austrália, em 2001; vice no US Open 2004, e levou para casa a medalha de ouro no mundial em 2006.

Além disso, tem orgulho de lembrar das duas paraolímpiadas as quais participou, em 2004 (Atenas) e em 2008 (Pequim), além de sua maior conquista no esporte: o Parapan, no Rio, em 2007, quando foi campeão de duplas. “Foi uma emoção muito grande receber a medalha com minha família observando da platéia. Passou um filme na minha cabeça de tudo o que passei para chegar ali”, diz Pommê, que é o atual terceiro colocado no ranking brasileiro.

Olhando para o futuro, o foco do tenista agora é participar da Paraolímpiada de Londres, em 2012, e continuar treinando atletas em sua academia na zona leste de São Paulo.

Voleibol sentado

História similar aconteceu com Rogério Camargo. Aos 17 anos, ele foi vítima de um acidente de moto e teve a perna esquerda amputada. Hoje, tem 34 anos, trabalha em uma loja de automóveis, é casado, tem um casal de filhos e ainda luta contra o preconceito, desde o acidente.

Mas o que pouca gente sabe quando vai à loja onde Rogério trabalha é que ele já disputou duas finais parapan-americanas de voleibol sentado e foi campeão numa delas.

Com a ajuda do esporte, Rogério se colocou de volta na sociedade, mas ainda não vive do esporte. Diferentemente dos jogadores da seleção masculina de voleibol, que são bancados pelos clubes nos quais atuam, os paraatletas não recebem para jogar, treinam e jogam por prazer, mas gostariam de ter mais visibilidade, a ponto de viver pelo voleibol paraolímpico.

Rogério joga no Cruz de Malta, de São Paulo, pelo qual já foi tricampeão brasileiro, tetracampeão paulista e bicampeão do torneio Sérgio Del Grande – organizado pelo Comitê Paraolímpico Brasileiro. Para ele, o vôlei “é uma válvula de escape, uma terapia, uma volta para a sociedade, uma superação.” “Aqui, eu vejo os meus amigos, esqueço os problemas da vida e almejo competições”, resume.

Com a ajuda do esporte, Rogério diz ter uma nova família nos treinos, além da que tem em casa. “Quando juntamos eu, o Wellington, o Renato, o Deivisson e o Giovani, somos invencíveis. Ninguém ganha da gente.”

Não é por menos que os cinco fizeram parte do elenco campeão parapan-americano de 2007.

De volta à cidadania

Wellington Platini, de 25 anos, citado por Rogério, é outro exemplo. Hoje, é jogador do Cruz de Malta, da Seleção Brasileira de voleibol sentado e office boy em uma clínica médica. Um exemplo de garra, determinação, força e, acima de tudo, de superação de adversidades.

Aos 19 anos, o esporte de Wellington era o futebol, mas o destino proporcionou um capítulo triste e decisivo, que não permitiria mais que ele jogasse.

“O acidente foi de moto. Eu tava passando num cruzamento, onde o ônibus estava atrapalhando a visibilidade, o cara saiu do cruzamento e me pegou”, descreveu. O choque comprometeu as vias arteriais da perna direita, que teve de ser amputada.

O vôlei entrou na vida do jovem três meses após o acidente, por meio de um atleta que já praticava o voleibol sentado e o convidou a conhecer a modalidade, o início de um capítulo de recuperação na vida de Wellington.

“Eu tive que aprender a jogar voleibol, e a minha dificuldade, no começo, foi total: toque, manchete, como qualquer outro esporte que você está aprendendo. Mas, hoje, é o que eu mais gosto de fazer”, afirma o atleta, que após um ano e meio jogando pela equipe Cruz de Malta, foi convocado para a seleção brasileira júnior e hoje é integrante da seleção principal do Brasil.

Graças ao voleibol, Wellington conhece mais de 20 países, disputou as paraolimpíadas de Pequim, em 2008, e foi campeão parapan-americano no Brasil, em 2007, derrotando os Estados Unidos na final, título que ele considera o momento inesquecível e mais marcante de sua carreira no esporte.

“O esporte me trouxe de volta a cidadania. Mudou a minha vida, a amizade, o comportamento, me fez dar mais valor à vida, aos amigos e à família. O esporte só proporciona coisas boas”, completou Wellington.

Entenda o voleibol sentado – São seis jogadores de cada lado, com rotação de posições a cada ponto conquistado. O jogo é em formato “melhor de cinco sets”, e o princípio fundamental é muito simples: não deixar a bola cair na sua quadra, mas fazer com que ela caia na quadra do adversário. Tudo isso, com três toques apenas, de jogadores diferentes.

Com apenas algumas regras distintas do voleibol, como poder bloquear o saque, e altura da rede e tamanho de quadra menores, temos uma “nova modalidade”: o voleibol paraolímpico ou vôlei sentado. A equipe masculina do Brasil foi campeã parapan-americana no Rio de Janeiro, em 2007, vencendo, de virada, os Estados Unidos na final.

No entanto, o esporte encontra dificuldades que a modalidade tradicional não enfrenta. As menores quantias de investimento, dificuldades no transporte dos atletas e a conciliação da prática do esporte com o trabalho de forma paralela são os fatores que, segundo Fernando Guimarães, técnico da equipe Cruz de Malta, de São Paulo, e irmão de José Roberto Guimarães, técnico da seleção brasileira feminina de vôlei, impedem o crescimento do esporte no Brasil.

“A coisa não está profissional ainda”, diz Fernando, quando o assunto são as condições que regem a forma de organização das competições de voleibol sentado no País.

As dificuldades apontadas por Guimarães fazem com que as competições sejam divididas em etapas, com os times chegando a realizar três jogos no mesmo dia. “A gente tem que fazer por etapas. Então, num sábado você faz dois, três jogos, para poder otimizar o tempo, porque custa e as pessoas trabalham”, explica o treinador.

Conheça a história do tênis em cadeira de rodas

De acordo com a Federação Internacional de Tênis em Cadeira de Rodas (IWTF), o tênis de cadeira de rodas começou a ser praticado em 1976, por Jeff Minnenbraker e Brad Parks, e foi incorporado aos Jogos Paraolímpicos em Seul, em 1988, mesmo ano de fundação da entidade.

Qualquer pessoa que tem alguma deficiência relacionada com a locomoção pode competir em cadeira de rodas. Se o tenista provar que não tem condições de correr em quadra, ele estará credenciado para participar de torneios para cadeirantes.

Independente da diferença de mobilidade entre cadeirantes e tenistas convencionais, as regras do tênis em cadeira de rodas são idênticas ao esporte tradicional, exceto por um detalhe: a bola pode tocar na quadra duas vezes antes de ser rebatida, podendo o segundo quique ocorrer fora das linhas da quadra. E aí está o grande segredo para surpreender o oponente no tênis de cadeira de rodas: atacar a bola após o primeiro toque na quadra, enquanto o adversário está virando a cadeira. “Tem que ter movimentação total e bater forte”, acredita, Marcos Vasconcelos, praticante do esporte.

No Brasil, o tênis de cadeira de rodas começou a ser praticado em 1985, por José Carlos Morais, que esteve na “estréia” do país no esporte nas Paraolímpiadas de Atlanta, em 1996.

O que explica a baixa procura pelo esporte é o alto custo da cadeira – que tem de ser comprada pelo atleta – e a falta de patrocínio. “A cadeira de rodas adaptada de fibra de carbono dá melhor mobilidade e tem que ser comprada fora do país, então dificulta o ingresso no esporte”, lamenta o tenista Maurício Pommê.

Apesar de contar com poucos praticantes, o tênis em cadeira de rodas é encarado de forma séria pelos tenistas, que podem ganhar até um milhão de reais em etapas do circuito anual profissional.

Reportagem e fotos: Fabrício Amorim, Gabriel Ferreira Nunes, Luiz Henrique Ferreira e Raphael Valente. Orientação e edição: Prof. Alexandre Possendoro